Capítulo 69 — Todo seu
Emma Anderson
Eu queria dizer que tinha ficado surpresa quando Simon bateu na porta do quarto e disse que Damien estava subindo. Mas não fiquei. Assim como queria fingir surpresa ao vê-lo entendendo tudo errado quando disse: “Mas agora sei por que não faz questão de falar comigo”. Só que, até aqui, tudo era previsto.
Mas Damien Knight quis me provar que não era tão previsível assim. Eu não segui com ele para o quarto, mas assim que eles passaram pela porta, olhei para o Simon e, sem dizer nada, fui até lá.
— O que foi, Sa? — perguntei ao vê-la saindo do quarto.
— Ele pediu para conversarem a sós — ela respondeu e seguiu para a sala.
Acabei não resistindo e entrei, ficando encostada na parede onde eles não me viam. Ouvi toda a conversa: Ellie perguntando se já podiam ir embora, Damien respondendo naquele tom que usava só com ela… calmo, paciente, carinhoso e disposto a tudo para vê-la bem.
Me doeu ver a vulnerabilidade da minha irmã. Mas aqueceu meu coração ouvir a forma como Damien tratou de tudo. E quando ele disse “Eu amo as duas”, minha vontade foi de ir até lá e dizer: "Nós também te amamos"… só que eu resisti.
Ele fez uma última promessa a ela: “Logo vocês duas voltarão para casa”. E eu quis acreditar naquilo; queria acreditar que seríamos maiores do que qualquer dor que causamos um ao outro. Mas havia uma vozinha dentro de mim que me mantinha no “e se”... E se ele voltasse atrás e descobrisse que a dor ainda era maior do que o que ele sente por mim? E se houvesse outra briga e ele me mandasse embora novamente? E se essas coisas acontecessem, o que eu ia fazer? Eu iria conseguir ficar de pé?
Encostei na parede, ainda onde eles não me vissem, fechei meus olhos e fiz o que sempre faço nessas horas… chorei. Eu não o ouvi se aproximando, mas senti sua presença e a mão no meu rosto secando minhas lágrimas.
Abri meus olhos e encontrei o azul dos dele me encarando. Ele não disse nada, só encostou a testa na minha, e foi o suficiente para eu desabar. Damien acariciou meu rosto e murmurou:
— Nós vamos ficar bem… eu prometo.
Eu queria acreditar, como eu queria. Damien se afastou.
— Podemos conversar? É rápido.
Assenti e saímos do quarto. Savannah estava no corredor.
— Sa, pode ficar com ela? Eu volto assim que o Damien for embora.
— Claro, Em. Fica em paz — agradeci. Olhei para a sala e não vi Simon ali. Fiz sinal para Damien me seguir; entramos no quarto em que eu estava hospedada e sentamos lado a lado na cama.
— Então? — perguntei, encarando-o.
— Você ouviu minha conversa com ela? — perguntou, direto como sempre.
— Sim — respondi da mesma forma.
— E o que achou? Acredita que dá para voltar?
— Voltar a ser babá do Luca? — perguntei, sem desviar os olhos dos dele.
— Voltar ao que éramos. Eu, você e as crianças. — Fiquei sem responder por alguns segundos. Era só dizer “ok” ou “tudo bem, eu volto”. Mas travei. — Em… — ele me chamou.
— Eu quero… — parei de falar por um instante.
— Mas? — Damien perguntou. Respirei fundo, pensando em tudo o que nos levou até esse momento. Ele esperou com expectativa.
— Mas preciso pensar — respondi finalmente. — E, se eu voltar, volto a ser babá do Luca. Mas ao que éramos, eu e você… preciso de mais um tempo.
Ele desviou os olhos dos meus e passou a mão no cabelo, em um gesto que eu já conhecia. Estava ponderando minhas palavras e, possivelmente, controlando-se para não rebatê-las.
— Tudo bem — por fim, ele respondeu. — Mas ainda acha que precisa pensar sobre o Luca? Poderia voltar comigo hoje; ele está ansioso por isso, e a Ellie também.
Damien tinha razão, mas eu não podia sair da casa do Simon assim, na madrugada, sem nem ao menos conversar com ele e agradecer por tudo.
— Eu vou voltar, Damien. Só que não hoje, não assim. Amanhã de manhã o Henry vem ver a Ellie, e também preciso conversar com o Simon. — A menção de Simon o irritou, eu notei.
— Simon… e o que ele tem a ver com isso?
Ele saiu de cima de mim com um movimento ágil e se colocou de pé ao lado da cama. Me mantive deitada por um instante, tentando recuperar o controle dos meus sentidos, enquanto ele ajeitava a postura.
— Tudo bem — ele disse, voltando ao seu tom de decisão. — Você volta para casa amanhã como babá do Luca. Eu não vou te obrigar a fazer nada que não queira — ele voltou ao nosso assunto anterior. — Me liga quando estiverem prontas que eu venho buscá-las.
Me sentei na cama, ajeitando a camisola que tanto o incomodou. Damien se aproximou novamente, curvando o corpo para frente até deixar a boca a centímetros da minha.
— Mas entenda, amor… — Eu ia rebater para ele não me chamar assim, mas antes que eu o fizesse, ele continuou: — Eu não te forçar não significa que eu vá desistir.
Ele me deu um selinho rápido, mas carregado de possessividade.
— Damien! — o repreendi, sentindo meu rosto queimar.
Ele sorriu, aquele sorriso de quem sabe exatamente o poder que tem. Endireitou o corpo e caminhou em direção à porta.
— Agora eu vou embora. Nos vemos amanhã.
Eu nem pensei em acompanhá-lo até a saída. Fiquei ali, sentada, ouvindo o som de seus passos se afastando. Assim que ouvi o clique da porta se fechando, me joguei de volta na cama, passando o dedo sobre meus lábios. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto.
— Babaca… — xinguei em um sussurro carinhoso.
Eu sabia que ainda era cedo para voltarmos oficialmente. Os "e se" ainda faziam barulho na minha mente. E se ele não conseguisse conviver com o meu passado no longo prazo? Mas uma coisa era certa: eu era completamente apaixonada por aquele homem.
Ouvi batidas suaves na porta e meu coração deu um salto. Me levantei rapidamente, imaginando que era Damien ou que Savannah precisava de ajuda. Mas, quando abri a porta, o sorriso morreu nos meus lábios.
— Simon — eu disse, a surpresa evidente na minha voz.
Ele me encarou com uma expressão indecifrável, as mãos nos bolsos da calça de moletom.
— O Damien acabou de ir embora — ele começou, a voz calma, mas carregada de algo que não consegui identificar. — Sei que é tarde, Emma, mas será que a gente pode conversar?

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