Capítulo 70 — Perfeito
Emma Anderson
Eu ainda estava processando a visita do Damien quando Simon apareceu na minha porta querendo conversar. Eu assenti; ele entrou e sentou na minha cama sem convite. Acabei sentando ao seu lado.
— Aconteceu alguma coisa? — foi a pergunta mais idiota que eu poderia ter feito, porque era óbvio que havia acontecido. “Damien” tinha acontecido. Mas essa foi a única coisa que veio à minha mente para dizer.
— Essa pergunta eu é quem gostaria de fazer… — ele começou. — Aconteceu alguma coisa entre você e ele? Pois, além de sair daqui com um sorriso estampado no rosto, ele ainda me disse que volta amanhã para buscá-las.
Não podia mentir para ele. Só que eu tinha planejado essa conversa para amanhã, depois de uma noite de sono; não agora, não assim.
— Nós conversamos — falei, encarando-o. — Eu decidi aceitar voltar a ser babá do Luca.
— Só babá, ou aceitou… — ele não precisou terminar; eu entendi o que ele queria dizer.
— Por enquanto, só a babá. Mas, Simon, eu não vou mentir: eu ainda gosto dele… e muito.
— Eu sei, eu vejo. — Simon respondeu, depois ficou em silêncio por alguns minutos, até voltar a falar: — Eu te disse mais cedo que, enquanto estivesse sozinha, eu não desistiria nunca. — Ele pegou uma das minhas mãos com carinho. — Só que, antes de qualquer desejo que eu tenha, existe um sentimento sincero em querer o melhor para você. E para o idiota do meu amigo também.
Sorri para suas palavras e cobri a mão dele com a minha.
— Obrigada…
— E é por esse sentimento que estou aqui, Emma. — Simon me encarou. — Eu quero, sim, o melhor para você, e não estou dizendo que o Damien não seja esse melhor. Mas eu o conheço há mais tempo. O Dam tem um coração enorme, ferido, sim, mas grande demais. E ele nem percebe. Só que ele também é impulsivo e, mesmo tentando, ele não se controla.
— Eu sei — o interrompi, e ele continuou:
— Sei que você sabe. Mas você já sofreu muito e não merece sofrer mais ainda. — Simon levou a mão ao meu rosto e o acariciou com o polegar. — Só pensa em tudo, querida. Avalia tudo antes de qualquer passo para não sofrer lá na frente.
— Eu vou… — sussurrei. — Eu prometo.
— E lembra sempre que eu estou aqui. Seja para finalmente me dar uma chance… — ele disse com um sorriso, e eu sorri junto — ou só para ser seu amigo, te ouvir e te ajudar no que for preciso.
— Você é perfeito, Simon… — as palavras saíram sem que eu controlasse.
— Pena que não o bastante para conquistar seu coração — ele respondeu, e eu fiquei sem reação. — Estou só te provocando, querida. — Simon beijou a minha testa. — Mas tem outra coisa que eu queria te falar. — O olhei confusa antes de perguntar:
— O quê?
— O casamento no sábado. Sei que você e a Ellie foram convidadas. Já que você e o Dam “ainda” não voltaram — ele enfatizou a palavra como se aquilo já fosse certo de acontecer, e eu revirei os olhos — Gostaria de saber se quer me acompanhar?
— Para ser sincera, com tudo o que aconteceu, já tinha até desistido de ir.
— Não precisa me agradecer, Em. Por nada. Eu fiz e faria tudo de novo, se fosse preciso. — Me separei o suficiente só para encará-lo e disse:
— Por isso que você é perfeito. — Nós dois rimos. Simon tirou uns fios de cabelo do meu rosto, os olhos cravados em mim. Ele desceu os lábios até os meus em um selinho demorado. Eu podia ter recuado pelos meus sentimentos pelo Damien, mas principalmente pelo que havia acontecido minutos antes de ele ir embora.
Mas não recuei; me permiti sentir aquela carícia. Não era o certo, eu sabia. Só que nós dois merecíamos esse momento. Eu, para saber que existe alguém que gosta de mim de verdade e não se importa em demonstrar isso; e Simon… para saber que, mesmo que nós dois não compartilhemos dos mesmos sentimentos, ele ainda é especial para mim.
Quando nos separamos, ele passou o nariz pelo meu rosto e sussurrou:
— É uma pena que ele tenha chegado antes de mim. — Ele me deu um selinho rápido dessa vez. Nos afastamos, Simon me deu boa noite e me deixou ali, com a lembrança do seu carinho.
Deitei na cama, apaguei a luz e, depois desse dia o mais agitado possível, eu dormi.
Acordei, mas não abri os olhos. Eu sentia dedinhos no meu rosto; um sorriso brincou em meus lábios. Pelo visto, a Ellie acordou antes de mim. Joguei os braços para o lado para puxar seu corpo até o meu, mas senti falta dos cabelos compridos.
Qual teria sido o milagre para ela deixar a Savannah prendê-los logo cedo? Colei seu corpinho no meu, mas ainda sentia que havia algo estranho. Foi então que ouvi:
— Acorda, Em… já são dez horas. — Um choque percorreu meu corpo. Abri os olhos e encontrei os dele junto do sorriso mais lindo que existia. — Bom dia — ele falou, e senti meus olhos marejarem.
— Bom dia… meu menino.

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