Capítulo 71 — Nada vai nos afastar
Damien Knight
Eu praticamente não dormi, mas levantei em meu horário habitual e segui minha rotina: academia, banho e empresa. Mas, antes de sair, falei com a Leah.
— Emma e Ellie voltam para casa hoje.
— Graças a Deus! — ela me disse com alegria, e não controlei o sorriso.
— Deixe tudo arrumado, por favor, e desmarque as terapias do Luca. — Ela assentiu, e eu continuei: — E peça ao James para levá-lo até a empresa às nove; de lá, iremos para o Simon buscar as meninas.
— Sim, senhor — me respondeu empolgada. — Vocês todos almoçarão em casa? Vou pedir para a Nina fazer o prato preferido delas.
— Faça isso. Eu não pretendo voltar para a empresa depois de pegá-las.
— Pode deixar, eu preparo tudo.
— Obrigado, Leah. E mais uma coisa — ela me olhou atenta. — Eu não disse nada ao Luca ainda. Só o arrume e diga para ir me encontrar. Como vou mais cedo para a empresa hoje, não quis acordá-lo, mas quero eu mesmo dar a notícia.
Leah assentiu e eu segui para o escritório. Minhas primeiras horas do dia foram corridas; eu precisava terminar de consolidar o contrato de São Francisco, já que vim embora antes do previsto. John chegou pontualmente às oito, estranhando minha presença ali antes dele.
— Bom dia, senhor.
— Bom dia, John — respondi sem tirar os olhos do computador. Mandei um documento para impressão, assinei e entreguei a ele. — Revise e mande para São Francisco, e cancele tudo o que eu tiver depois das nove. Vou passar o resto do dia com a minha família. — Voltei minha atenção para o computador.
— Ok… — ele começou. — Mas tenho um assunto para tratar com o senhor. — Levantei o rosto para encará-lo. — É sobre o acidente; Vincent disse que tem novidades.
Mantive meus olhos nos dele, recostei na cadeira.
— Eu também tenho. Já descobri quem estava dirigindo. E isso era o que eu sempre quis saber, então, para mim, assunto encerrado — falei e voltei a mexer no meu computador, mas John não recuou. Aquilo me incomodou; levantei os olhos até ele. — John?
— Nós também descobrimos, senhor. Sabemos que era a Emma. — Vi algo brilhar nos olhos dele, uma confusão, mas ele não recuou, continuou: — Mas não foi só isso que ele descobriu. — agora ele tinha minha total atenção.
— E o que mais ele descobriu? — Vi o instante exato em que o medo passou por seus olhos; só não sabia se era medo do que ia dizer ou medo da minha reação ao dizer.
— Que não foi um acidente…
— Como é que é? — meu tom beirou o mortal.
— Vincent ainda está indo mais a fundo, mas ele descobriu que naquela noite não foi a Emma quem causou o acidente, mas a senhora Knight. — senti como se toneladas tivessem caído sobre meus ombros. — Ela cruzou o sinal vermelho e bateu no carro da Emma. Foi a Clara a culpada; Emma, a irmã e os pais foram as vítimas.
Fechei a minha mão em punho sobre a mesa. Eu a culpei, ela se culpou e, no fundo… Clara era a culpada.
— Tem certeza disso? — perguntei em meu tom habitual, ele assentiu. — Você disse que Clara quem causou o acidente, mas no começo da conversa disse que não foi um “acidente”... explique — exigi.
— Porque não foi, senhor. A senhora Knight não cruzou o farol de propósito. Há indícios de que houve falha mecânica, e não humana.
— Impossível. Nossos carros sempre passam pelas revisões. James nunca falha nisso, nunca — garanti.
— Eu sei disso, senhor. E o Vincent também. Por isso que tudo parece suspeito. E é isso que ele quer conversar; ele quer saber se pode continuar com as investigações.
— Deve — respondi sem hesitar. — Eu quero todos os detalhes. Tudo.
— Sim, senhor. Vou avisá-lo agora mesmo.
Passei a mão pelo cabelo tentando manter a calma. Eu iria buscar a Emma, levar ela e minha pequena para casa. Não queria ter descoberto isso agora, não agora que ainda tenho coisas para acertar com ela.
Precisava manter a cabeça no lugar, mas também não podia esconder isso dela. Emma carregou essa culpa tempo demais. Mas também tinha o fato de Clara ser "culpada", não queria isso pra ela, não queria manchar sua imagem. Mas sentia o alívio por Emma...
Voltei a olhar para John que, por me conhecer há anos, sabia exatamente o caos interno que eu estava vivendo.
— Obrigado, John. Faça tudo o que eu pedi. — Ele me deu um aceno e, antes que saísse, ouvimos batidas na porta. Assim que ela abriu, Luca entrou ao lado de James.
— Papai! — ele gritou e correu até mim. Ouvir meu filho falar foi lindo. Notei o semblante de John mudar; meu assistente havia se emocionado assim como eu.
— Bom dia, campeão — falei, o pegando em meu colo. Olhei para o James. — Obrigado, pode deixá-lo comigo e voltar para casa.
— Luquinha, eu senti tanto sua falta! — Ela o abraçou e meu filho respondeu:
— Eu também, El. — Todos nós notamos o corpinho dela enrijecer de surpresa; ela ainda não o tinha ouvido falar. Ellie se separou dele.
— Sua voz é linda! — Savannah sorriu e chorou ao mesmo tempo; Simon pareceu emocionado e eu… não sabia nem descrever o que estava sentindo.
— Emma? — perguntei, me direcionando à Savannah, tentando manter o meu tom firme.
— Ainda dormindo, senhor. O doutor Henry chega às onze para ver a Ellie. Eu já estava indo até lá para acordá-la — a mulher me avisou.
— O Luca e eu fazemos isso. Se quiser, pode ir arrumando as coisas da Ellie e as suas. — Savannah me olhou confusa, então continuei. — A Emma decidiu voltar para casa; assim que a consulta acabar, partiremos. — Ela assentiu com um sorriso e Ellie gritou de alegria, saindo correndo de volta para o quarto.
— Podemos? — perguntei ao Simon, fazendo sinal para o corredor. Ele deu um passo para o lado.
— Claro, meu amigo. Acho que você sabe o caminho. — Senti a provocação em seu tom. Dei um aceno a ele, peguei a mão do Luca e seguimos até o quarto onde eu sabia que a Emma estava.
Abri a porta com cuidado e ela dormia pesadamente, como se precisasse daquilo. Olhei para o Luca e falei em um sussurro:
— Pode ir, eu fico aqui. — Ele soltou minha mão e caminhou até ela. Encostei na parede e fiquei admirando a cena.
Ele a acariciando, ela o envolvendo, e depois…
— Acorda, Em… — Ele olhou para o relógio no criado e disse: — Já são dez horas. — Ela abriu os olhos e o Luca disse com um sorriso: — Bom dia.
— Bom dia… meu menino — Emma respondeu com a voz embargada e o abraçou forte. Nossos olhos se encontraram naquele exato momento. E ficamos ali, nos encarando. Eu sabia que levaria um tempo para que as coisas voltassem a ser como eram entre nós, mas eu não iria desistir.
E enquanto eu olhava para eles dois rindo e conversando, o acidente veio à minha mente novamente. Aquela noite já nos destruiu uma vez, a nós quatro: Emma, Luca, Ellie e eu. Mas, seja o que for que eu descubra dessa vez, não vou permitir que nos afaste. Nada. Nunca mais vai nos afastar.
Senti meu celular vibrar no bolso. Era uma mensagem. Olhei para a tela:
“Mudança de planos… adiantei minha viagem. Chego em quinze dias.” Saí da tela sem responder, porque nada, nem mesmo ela, vai me fazer recuar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar