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O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar romance Capítulo 82

Capítulo 82 — Posso e quero

Fernanda Garcia

Caminhei com a ajuda das meninas e não olhei para trás. No fundo, eu tinha medo de que, se olhasse, Mike os convencesse a me mandarem embora junto com ele. Taylor, que se mostrou uma mulher inteligente e observadora, deve ter notado meu medo.

— Fica tranquila — ela começou, caminhando na minha frente, sem nem mesmo olhar para trás. — Meu grandão jamais te entregaria para aquele monstro.

— Obrigada… — sussurrei, e senti a mão de Emma apertar de leve a minha. Um gesto simples, mas que dizia claramente: “estamos aqui”.

Chegamos à casa, e dizer “casa” chegava a ser um insulto. Era uma mansão, quase um castelo.

— Puta merda! — as palavras saíram da minha boca e da de Bree ao mesmo tempo, fazendo Emma e Taylor rirem.

— Já soltei vários desses desde que entrei nessa família — Tay disse em um tom divertido. — Agora vamos lá para cima. No banheiro do meu quarto tem um kit de primeiros socorros; se isso não resolver — ela parou no pé da escada antes de concluir — Nós chamamos a Esther.

— Esther? — perguntei, confusa.

— Sim — foi Emma quem respondeu. — É uma médica amiga deles; ela é excelente e de uma simpatia sem igual.

— Não quero atrapalhar mais ainda, e pelo que eu vi vocês estão em um casamento — falei, sentindo o peso da realidade. Eu havia me tornado um problema para todos eles. — Olha… — comecei, me soltando das meninas. — Se chamarem um táxi para mim, eu posso ir embora e me viro com isso — apontei para meus ferimentos. — Assim vocês podem voltar para a festa.

— Fernanda… — Taylor disse em um tom sério. — Cala a boquinha, vai. — Emma e Bree caíram na risada.

— Concordo com a Tay. Faz esse favor para nós e sobe logo essas escadas — Bree disse, ainda rindo, e senti meu rosto esquentar. Emma esticou a mão para mim.

— Agora vem, Fer. Vamos subir. — Segurei a mão dela e senti meus olhos arderem com as lágrimas que começaram a se formar.

Eu nunca tive isso… apoio. Pai morto, mãe narcisista, filha única, sem amigos. E no dia em que pensei ter encontrado o amor da minha vida, descobri que ele era meu pior pesadelo. Subimos com cuidado, as meninas me perguntando a cada segundo: “Está conseguindo?”, “Tá doendo?”. Por um momento, pensei que tinha encontrado três mães, e não feito amigas.

Entramos no quarto e minha vontade de soltar outro “puta merda” ferveu na minha língua. O quarto da Taylor conseguia ser maior do que meu apartamento no Queens.

— Eles são milionários? — perguntei em um sussurro, e Bree respondeu:

— Mi? Não, são bi mesmo. — Emma revirou os olhos para a amiga.

Elas me colocaram na cama com cuidado. Taylor foi até o banheiro e voltou com o kit.

— Agora tira a roupa — ela mandou. Eu hesitei por um instante. — Garota, o que você tem aí, todas nós temos — Taylor disse quando me viu hesitar.

Tirei a camiseta e a calça com a ajuda da Emma.

— Minha nossa… — Bree soltou, sem conseguir conter, e por instinto abracei minha cintura. — Me desculpa, Fer. Saiu sem querer — ela disse, sem graça.

— Está tudo bem, Bree — respondi baixo. Eu tinha vergonha das marcas, mas fui sincera. Estava tudo bem porque, no fundo, eu já me acostumei.

Taylor ajoelhou na minha frente e Emma sentou ao meu lado.

— Vamos limpar os novos e passar pomada nos antigos para ajudar a cicatrizar — Emma falou em um tom suave, e eu assenti.

Comecei a ser cuidada por essas três estranhas, e um sentimento, bem, eu acho que era sentimento, pois eu nunca havia sentido antes, começou a inflar meu peito. Olhei para cada uma delas: suas expressões de carinho, seus toques de cuidado... e, mesmo tentando segurar, as lágrimas escorreram.

— Ei… — Emma disse. — O que foi? Está doendo em algum lugar?

— Vou pegar um analgésico — Taylor disse, já se levantando, mas segurei sua mão.

— Não é isso… — falei, mas parei por um segundo. — Não que eu não esteja com dor; está doendo pra cacete. Mas as lágrimas não são disso, não são da dor.

Emma secou meu rosto com o polegar e tirou alguns fios de cabelo dos meus olhos.

— Então o que é? — ela perguntou.

— É que… em vinte e quatro anos de existência, eu nunca fui tratada assim, com carinho. Nem mesmo pela minha mãe.

Sem aviso, Emma me puxou para um abraço e beijou minha têmpora.

— Melhor ficar sentada até eles trazerem a Esther. — A voz dele era grave, rouca e extremamente sexy. Caralho Fernanda, para de reparar nesses coisas. Repreendi a mim mesma.

— Eu estou bem, obrigada — eu disse, tentando firmar o pé no chão, e gemi novamente.

— Estou vendo — ele disse com deboche, e todos soltaram risos abafados. O encarei, mas desta vez não era curiosidade ou admiração; era de raiva mesmo.

— Agradeço a preocupação, senhor, mas, de verdade, eu já me acostumei com a dor.

Vi algo brilhar nos olhos dele. Era malícia, mas também tinha outra coisa que eu não consegui decifrar.

— Ninguém se acostuma com a dor — ele disse sério, segurando com firmeza meu braço. — As pessoas pensam que sim, mas uma hora o corpo cobra. Principalmente quando a adrenalina passa.

Notei o silêncio que caiu sobre o lugar, como se as palavras dele, por mais simples que fossem, tivessem um peso maior.

— O meu corpo também cobra, como o de todo mundo. Mas a diferença entre mim e eles é o que minha mãe me diz desde pequena: “você não é todo mundo”.

Ficamos ali, com o olhar preso um no outro.

— Beleza, acho que o Ozzie pode fazer companhia para a Fer enquanto buscamos a Esther — Taylor anunciou, já colocando todo mundo para fora.

— Mas, Tay… — tentei dar um passo, mas o loiro, que agora eu sabia que se chamava Ozzie, me segurou e sussurrou bem próximo ao meu ouvido:

— Você ouviu, Fer… — Senti a respiração dele bater em mim. — Eu posso te fazer companhia.

A porta se fechou. Todos saíram, deixando somente nós dois ali.

— Pode ou quer? — a pergunta saiu sem que eu controlasse.

Ozzie avaliou cada pedaço do meu rosto. Ele estava tão próximo que eu sentia o hálito dele em mim.

— Posso e quero.

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