O dia do parto chegou.
Ayla já não sabia distinguir o que era dor física e o que era medo. O frio da sala de cirurgia misturava-se ao suor que escorria por sua testa, colando os cabelos à pele. O teto branco, com suas lâmpadas fortes, parecia distante, quase cruel. O cheiro de antisséptico invadia tudo, e cada vez que uma nova contração vinha, ela pensava que talvez não fosse aguentar.
Juan estava ali, paramentado, máscara cobrindo metade do rosto, mas os olhos… os olhos estavam vermelhos, tensos, e não paravam de procurar os dela.
— Eu tô aqui, Ayla, eu tô aqui — repetia, como se fosse um mantra.
Mas nem sempre conseguia controlar a voz, que falhava. Ele não era de chorar, mas naquele momento não sabia o que fazer com a angústia que pesava no peito.
O médico falava com calma, embora a pressa estivesse escondida na forma como suas mãos se moviam.
— Precisamos acelerar. A pressão dela caiu, a gente tem que agir rápido.
Ayla ouviu fragmentos. A anestesia deixava seu corpo meio fora de si, mas não a dor. A dor vinha como ondas brutas, atravessando ossos, rasgando músculos, uma dor que não se explicava em palavras.
— Vai ficar tudo bem, amor — Juan segurava sua mão, apertava, como se pudesse transferir força pelo toque.
Ela respirava entrecortado.
— E se eu não voltar, Juan? E se eu… — a frase morreu, porque a dor a calou.
— Não fala isso, por favor. Você vai voltar, você vai ver nosso filho. — Ele não pedia, ele implorava.
Os minutos se arrastavam, mas também corriam. As enfermeiras se moviam rápido, o monitor apitava em ritmos que deixavam Juan desesperado. Ele entendia que algo estava errado, mesmo que ninguém dissesse em voz alta.
Quando finalmente ouviram o choro, o tempo parou. Foi um som pequeno, mas cheio. Um grito de vida. Juan olhou, as lágrimas caindo antes que pudesse segurar.
— É ele. É nosso menino. — Sua voz falhou, mas não importava.
Porém, quando a enfermeira trouxe o bebê enrolado em pano azul, Ayla não conseguiu estender os braços. Estava pálida demais, os lábios quase roxos.
— Mostra pra ela — Juan disse, desesperado.
Ayla abriu os olhos com esforço, viu o pequeno rosto enrugado, a boca aberta num choro miúdo. A lágrima escorreu sozinha.
— Ele é lindo… — murmurou, antes de fechar os olhos de novo.
Juan entrou em pânico.
— Ayla? Ayla, fica comigo! — apertava a mão dela, olhava para os médicos. — O que tá acontecendo?
— Ela perdeu muito sangue. Estamos controlando, mas é grave.
Grave. A palavra bateu nele como um soco. Juan sentiu o corpo todo tremer. Ele tinha o filho nos braços, o peso leve e quente contra o peito, mas a mulher… a mulher que ele amava podia estar escapando.
Segundos viraram horas. Juan andava de um lado para o outro no corredor, o bebê na incubadora, Emma em casa com Edith. Ele não conseguia se sentar. Os pensamentos eram todos desordenados: lembrava das brigas, dos risos, da forma como ela deitava a cabeça em seu ombro quando queria silêncio. Imaginou-se sozinho com os dois filhos e sentiu o chão sumir.
Quando finalmente o médico saiu, tirando a touca, Juan prendeu a respiração.
— Ela está estável. Perdemos muito sangue, mas conseguimos conter. Vai precisar de observação, mas ela é forte.
Juan não respondeu, apenas fechou os olhos e apoiou a testa na parede fria do corredor. O alívio veio em forma de soluço.
O relógio na parede do quarto 312 do Hospital marcava 3h17 da manhã quando Ayla abriu os olhos pela primeira vez depois da cirurgia. A luz era fraca, um abajur com cúpula amarelada que lançava sombras longas no teto. O cheiro de álcool e remédio ainda impregnava o ar, misturado com um leve odor de suor e algo indefinível, talvez medo.
Juan estava sentado na cadeira ao lado da cama, com os olhos vermelhos e a barba por fazer. Ele não dormira, isso era óbvio. O rosto dele tinha aquela expressão de quem tenta parecer forte, mas que a qualquer momento pode desabar. Quando Ayla mexeu os dedos, ele segurou a mão dela com força, como se quisesse garantir que ela estava ali, de verdade.
— Você tá acordando — ele falou baixo, quase com um sorriso trêmulo. — Eu fiquei aqui o tempo todo, não saí nem um segundo.
Ela tentou responder, mas a garganta estava seca, a voz saiu num fio.
— O bebê... — murmurou. — Ele… nosso filho? — a voz mal passava de um sussurro.

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