A madrugada tinha aquele cheiro metálico de chuva prestes a cair. O ar estava pesado, úmido, e o céu parecia prestes a desabar em lágrimas. Ayla acordou primeiro, sentindo a barriga dura como pedra, o lençol grudado na pele pelo suor frio. No começo, achou que era mais um daqueles incômodos normais da gravidez, o corpo já acostumado a doer em lugares diferentes a cada dia. Mas logo veio a dor em ondas, crescendo e apertando por dentro, como se algo a sufocasse. O coração disparou, e quando se levantou, o calor molhado entre as pernas a fez olhar para baixo. Sangue.
— Juan... — a voz dela saiu rouca, quase um sussurro desesperado.
Ele se levantou de sobressalto, os olhos ainda pesados de sono, mas o instinto o fez agir rápido. Viu o lençol manchado e ficou branco, o rosto pálido como se a vida tivesse fugido dele.
— Meu Deus, Ayla... vamos pro hospital, agora.
Ele a ajudou a se vestir, as mãos trêmulas, tentando manter a calma que não existia. Pegou a bolsa da maternidade que ainda não estava pronta, jogou qualquer coisa dentro, a chave do carro quase escapando dos dedos. Ayla andava devagar, sentindo cada passo como uma ameaça, o medo crescendo a cada instante.
No carro, o silêncio era cortado apenas pela respiração ofegante dela. A estrada molhada refletia as luzes dos postes, e o limpador de para-brisa arrastava a água num ritmo irritante, como um metrônomo da angústia. Juan segurava o volante com força demais, os nós dos dedos brancos.
— Vai dar tudo certo, amor. — Ele dizia, mas parecia falar mais para si mesmo do que para ela.
Ela olhava pela janela, os olhos marejados, a voz quase inaudível:
— E se não der?
Ele não respondeu. Apertou o acelerador, o carro cortando a noite como uma flecha.
No pronto-socorro, o corredor cheirava a desinfetante barato e café requentado. Um médico os atendeu quase imediatamente, pedindo para Ayla deitar na maca. Juan ficou ao lado, segurando sua mão como se fosse uma âncora, tentando transmitir força.
— Estamos com trinta e quatro semanas — explicou o médico, enquanto colocava o aparelho de ultrassom sobre a barriga. A tela mostrou a silhueta do bebê, e o coraçãozinho batia rápido, firme. — O bebê está bem, mas o sangramento preocupa. Pode ser descolamento parcial da placenta.
A palavra soou como sentença. Descolamento. Juan fechou os olhos, só por um segundo, mas foi o suficiente para imaginar perder tudo.
— O que isso significa? — perguntou, a voz baixa, carregada de medo.
— Significa que precisamos monitorar muito de perto. Podemos tentar segurar a gestação por mais algumas semanas, mas há risco. Se o sangramento aumentar ou o quadro piorar, teremos que antecipar o parto.
Ayla apertou a mão dele com força, os olhos fixos nos dele, buscando coragem.
— E se ele nascer agora? — ela perguntou, quase sem voz.
— Ele tem boas chances, mas ainda é prematuro. Ficará na UTI neonatal e precisará de cuidados intensivos.
O mundo pareceu encolher naquela sala. Juan sentiu o peso das escolhas esmagando o peito. A incerteza era cruel: esperar e arriscar, ou agir e enfrentar as consequências.
— O que podemos fazer agora? — Juan perguntou, tentando controlar a voz.
— Repouso absoluto para Ayla, monitoramento constante, e qualquer sinal de piora, hospitalização imediata. É um momento delicado, mas ainda há esperança de que o bebê fique mais tempo na barriga.
Ayla respirava fundo, tentando manter a calma, mas as lágrimas escorriam silenciosas.
— Eu penso nele todos os dias, Juan. No rostinho, no jeito que ele vai segurar meus dedos... — ela engoliu em seco. — Mas se eu fizer algo errado, se ele sofrer por minha causa... eu não vou me perdoar nunca.
Juan passou a mão pelos cabelos dela, a voz firme apesar da dor.
— Olha pra mim. Você não está sozinha nisso. Ele não vai sofrer por sua causa. A gente vai lutar pelos dois.
Ela fechou os olhos, soluçando.
— E se eu não souber ser mãe? E se eu... repetir tudo?

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