Luna não se virou, mas os ombros se moveram de leve. Um sinal pequeno, quase invisível, de que estava ouvindo.
Laura respirou fundo antes de continuar. A voz saiu baixa, cuidadosa, como quem pisa em terreno sensível.
— A princesa Laura vivia em um castelo com os pais… — começou. — Os avós bem velhinhos, que a amavam muito, e um irmão que não gostava tanto dela.
Do lado de fora, Edgar havia parado diante da porta entreaberta. Ao ouvir o próprio nome na história, levou a mão à maçaneta, mas não entrou. Apenas ficou ali, imóvel. Luna permaneceu em silêncio.
— Todo mundo achava que ela tinha tudo — continuou Laura — mas, na verdade, ela se sentia sozinha quase todos os dias.
Edgar fechou os olhos por um instante. Aquela solidão… ele conhecia bem.
— Um dia, essa princesa conheceu um plebeu meio implicante… — Laura sorriu de leve. — Ele não tinha castelo, nem coroa… só um coração enorme e um amor muito grande pra dar.
Luna virou um pouco o rosto, atenta.
— Mas ele não queria demonstrar que gostava da princesa — continuou Laura, sem acusação. — Então implicava com ela o tempo todo. Chamava a princesa de Felícia.
Os olhos de Luna se arregalaram.
— Meu pai assiste comigo o desenho da Felícia… — disse de repente. — Às vezes ele chorava quando via. Aí eu secava as lágrimas dele e falava: “não chora, papai… eu te amo”.
Do outro lado da porta, Edgar sentiu o peito apertar. A mão subiu até o rosto, cobrindo a boca para conter o impacto daquela lembrança dita pela filha.
Laura sentiu o nó na garganta, inspirou fundo e seguiu.
— Esse plebeu ajudou o irmão da princesa a se aproximar dela… — disse com cuidado. — Eles acabaram se gostando tanto, mas tanto, que esse irmão virou mais pai da princesa do que irmão. Porque o pai verdadeiro dela só sabia cuidar do povo… e a mãe só queria fazer compras.
Luna pegou a boneca da cama e a abraçou.
— Os avós ajudavam, mas já eram muito velhinhos… então faziam todas as vontades da princesa, porque ela era a princesinha da casa.
Edgar apoiou a testa na porta por um segundo. Aquela história não era apenas uma metáfora. Era a própria vida deles sendo contada com cuidado.
Luna escutava sem piscar.
— Um belo dia, o plebeu parou de implicar com a princesa… — Laura sorriu de leve — e declarou o amor que sentia por ela. Eles ficaram muito felizes. Queriam se casar.
O tom de Laura mudou, mais sério.
— Mas a bruxa má apareceu… e colocou um feitiço nos dois. Esse feitiço, fez com que eles falassem coisas que machucavam. Coisas que partiam o coração. E os dois erraram… erraram feio. Machucaram um ao outro… e machucaram a si mesmos também. Eles mudaram completamente.
Edgar engoliu em seco. Lembrou da carta e das brigas que tiveram quando ele voltou. O quarto ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então eles se separaram — continuou Laura. — E doeu tanto… que a princesa achou que nunca mais ia conseguir sorrir de verdade. Porque, além de perder o plebeu… ela perdeu algo muito valioso que ele tinha dado pra ela.
Luna franziu a testa.
— O que ela perdeu? — perguntou curiosa.
Laura engoliu em seco.
— Ela perdeu… Ela perdeu… uma boneca de pano. — Ela respondeu, com cuidado. — Era como se fosse a filhinha dela.
Edgar sentiu os olhos arderem.
— Um dia, a princesa foi brincar sozinha perto de um rio… e a boneca caiu na água. A corrente levou ela embora.
— Por que ela não pulou na água? — Luna perguntou rápido.
— Porque era muito fundo… — respondeu Laura. — E ela não sabia nadar.
— Ela chorou? — Perguntou Luna, novamente interessada na história.
— Muito… — Laura respondeu, com a voz embargada. — Chorou demais. Sentiu uma dor enorme no peito.

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