Liam não conseguiu dormir. O relógio marcava quase seis da manhã, e a escuridão do quarto parecia mais densa do que o habitual. Olívia dormia encolhida na cama, o rosto tranquilo, a respiração leve. Mas a calma dela só acentuava o caos dentro dele.
O notebook estava aberto sobre a escrivaninha. A tela projetava uma luz fria no quarto silencioso enquanto ele fingia trabalhar, revisando relatórios que nem conseguia enxergar direito. A mente dele girava em círculos, incapaz de parar. As palavras dela, o choro, o toque, o beijo. Tudo vinha e voltava, embaralhado, como se cada lembrança acendesse uma parte dele que ele não sabia controlar.
“Quem é o homem responsável por essa mudança em você?”
Ele pensou outra vez, lembrando da própria voz ecoando no silêncio algumas horas antes.
Mas agora, o que o atormentava era outra coisa, o incômodo de perceber que ela já não reagia a ele como antes. Que conseguia enfrentá-lo. E isso, para um homem acostumado a ter tudo sob controle, era o que mais perturbava.
Quando deu seis em ponto, Liam fechou o notebook e se levantou. Foi ao banheiro, ligou o chuveiro e deixou a água escorrer pelos ombros. O vapor tomou conta do ambiente, mas nem o banho quente foi capaz de dissipar o peso da madrugada.
Secou-se com calma, passou a toalha pelo rosto e ficou alguns segundos diante do espelho. Pegou a navalha e começou a fazer a barba, os movimentos firmes e precisos, sem pressa, como quem executa um ritual diário de controle. Nenhuma hesitação, nenhum desvio.
Ao terminar, enxaguou o rosto e encarou o próprio reflexo. O olhar permanecia o mesmo de sempre. Frio, disciplinado, indecifrável. Nenhum traço de cansaço, nenhuma emoção à mostra.
Saiu do banheiro e foi até o closet. Escolheu uma camisa clara, abotoou-a com perfeição e vestiu o paletó escuro. Ajustou o relógio no pulso, conferiu o nó da gravata e endireitou o colarinho. Tudo no lugar. Tudo sob controle.
Antes de sair, se aproximou da cama. Ele ficou parado por alguns segundos, observando-a. Aquela serenidade era quase cruel, porque em silêncio, ela o desarmava de um jeito que nenhuma mulher jamais fizera.
Suspirou, recuou um passo e saiu do quarto.
Na sala de jantar, Frederico já estava sentado à mesa, mexia no celular. Olga tomava café, o semblante calmo e maternal, como sempre.
Assim que viu o neto se aproximar, ela sorriu com ternura.
— Bom dia, meu amor — disse Olga, pousando a xícara. — Vai sair cedo hoje?
Liam se aproximou da mesa com passos firmes. Cumprimentou os dois de forma contida, a voz baixa, mas segura.
— Bom dia, vovó. Bom dia, vô. — respondeu, sentando-se. — Sim, tenho algumas coisas pra resolver na empresa.
A empregada se aproximou, pronta para servir, mas ele ergueu a mão.
— Só um café, por favor. Sem açúcar.
Frederico colocou o celular sobre a mesa, o olhar fixo nele. Conhecia o neto o suficiente para perceber quando algo o perturbava.
— Está tudo bem, Liam? — perguntou, com a voz firme, mas sem rodeios.
Liam respirou fundo antes de responder. O tom veio calmo, controlado, sem espaço para emoção.
— Olívia passou mal durante a madrugada. — disse simplesmente.
O semblante de Olga imediatamente ficou tomado pela preocupação.
— Meu Deus… o que ela teve? Você chamou o médico? — perguntou, inclinando-se levemente, a voz carregada de afeto e inquietação.
Liam manteve o tom neutro, a postura impecável, sem deixar transparecer nada além de racionalidade.
— Ela está tendo muitos enjoos. — explicou, com a calma habitual. — O doutor Luiz, passou um remédio, disse que ajudaria a aliviar. Também recomendou umas massagens, mas, sinceramente, nem pensei nisso na hora. Procurei acalmá-la.
Olga assentiu, tocando a borda da xícara como se o gesto a ajudasse a conter a preocupação. Um sorriso suave brotou entre a ternura e a lembrança.
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