O silêncio que se instalou entre os dois era denso, quase físico. Nem o ar-condicionado, sempre constante e preciso, parecia amenizar a tensão que se acumulava sob a pele de Liam enquanto ele encarava o avô.
Frederico permanecia imóvel, mas sua presença ocupava o ambiente inteiro com sua postura ereta, mãos cruzadas atrás das costas, o olhar firme de alguém que construiu impérios sem nunca temer confrontos.
Liam manteve a postura firme, inabalável. Por dentro, porém, algo contraiu — um impacto seco, preciso — quando ouviu a dedução do avô. Não demonstrou. Não permitiria. Mas a verdade é que Frederico havia tocado exatamente no ponto que ele evitava até em pensamento.
— Qual das duas opções é a correta, meu neto? — repetiu Frederico, com a calma cruel de quem sabe que acabou de colocar o outro contra a parede.
Liam desviou o olhar e caminhou até a mesa, como quem precisa de um ponto sólido para manter o próprio controle intacto. Os dedos tocaram a madeira, firmes, estáveis.
— Não vou discutir isso agora com o senhor, vovô. — disse ele, a voz baixa, porém firme. Firme demais para um homem cujo controle, por dentro, começava a rachar.
Frederico ergueu uma sobrancelha. A expressão não era de irritação. Era pior, era de quem já esperava aquela resposta.
— Qual o problema de responder uma pergunta tão simples? — questionou, com ironia contida.
Liam respirou fundo, tentando retomar o próprio eixo. Não deixaria transparecer a raiva, o incômodo, o que quer que queimasse sob a pele. Mas, por mais que tentasse, o controle — sempre absoluto — começava a falhar nas bordas.
— Porque a questão em pauta não é o meu casamento — disse ele, pausado, tentando manter a lógica acima do resto — e sim a Olívia trabalhar aqui. Ao meu lado. Com um cargo abaixo do meu. Esposa de bilionário não trabalha.
Frederico deu dois passos lentos, observando-o como se cada músculo do neto dissesse mais do que as palavras.
— Liam… — disse com voz grave — eu te conheço mais do que seu próprio pai.
A frase acertou uma ferida aberta. O maxilar de Liam contraiu, mas o patriarca continuou sem hesitar.
— Quando você foge de um assunto, meu neto, isso sempre significa apenas uma coisa… — continuou Frederico. — que você não quer admitir o que já sabe.
Liam desviou os olhos por um segundo. Um segundo só. Mas suficiente para Frederico concluir.
E então ele provocou.
— Isso me leva a uma conclusão bastante simples. — afirmou, num tom neutro demais para não ser intencional. — Esse casamento não é real.
Era uma provocação. Lúcida. Cirúrgica. Fria.
E funcionou. A expressão de Liam mudou.
Frederico continuou, como quem estuda a reação.
— Tudo foi rápido demais. — disse, sem elevar a voz. — A ponto de sua família não estar presente. Decisões às pressas. Um casamento fora do padrão. É natural pensar que…
Liam sentia o sangue ferver.
— …isso tudo seja só uma encenação. — completou Frederico, firme. — Uma forma de garantir sua posição na empresa e a herança quando eu partir.
Era um tiro calculado. Preciso. E pegou exatamente onde Frederico queria.
Foi então que Liam explodiu.
— Esse casamento é real, vovô! — a voz dele ecoou pela sala, mais alta do que pretendia. — Será que não está nítido?!
As palavras ficaram suspensas no ar.
E, por um instante — um instante rápido, quase imperceptível — Liam ficou completamente imóvel. Paralisado. Como se tivesse acabado de perceber o que tinha acabado de dizer.
O rosto dele não mudou… mas os olhos, sim.
Houve perplexidade ali. Breve. Controlada.
Mas real.
Ele não esperava aquilo.
Não esperava admitir aquilo.
Nem para o avô.
Nem para si mesmo.
Frederico não recuou. Não piscou.
Ele sabia exatamente onde havia tocado.


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