O cheiro de café fresco se espalhava pela sala de jantar da mansão Holt. A mesa longa estava posta como sempre: flores discretas no centro, guardanapos de tecido perfeitamente dobrados, talheres alinhados milimetricamente.
Frederico já estava no lugar de sempre, à cabeceira, lendo um jornal impresso como se o mundo ainda girasse em torno da tinta no papel. Olga, ao lado, mexia o chá com calma. Érica ajeitava o colar no pescoço, enquanto Felipe passava geleia na torrada com um ar distraído demais para ser real.
Os passos de Olívia ecoaram pelo mármore, anunciando sua presença antes mesmo de ela cruzar o limiar.
— Bom dia. — cumprimentou, com um sorriso educado, passando o olhar por todos.
— Bom dia, minha querida. — disse Olga, com aquele olhar que abraçava antes mesmo das palavras. — Conseguiu descansar?
Olívia puxou a cadeira devagar e se sentou, a mão deslizando pelo ventre quase imperceptível, como se buscasse ali um pequeno conforto.
— Demorei um pouco para pegar no sono… — admitiu, a voz suave, quase um desabafo. — Mas estou bem, vovó. De verdade..
Olga fez uma expressão compreensiva.
— Se começar a ter insônia, precisa falar com o doutor Luiz. — comentou. — É horrível ficar sem dormir. Grávida então… pior ainda.
Felipe soltou um riso curto, sem humor, enquanto mexia o café.
— Horrível mesmo é quando a mulher enjoa do marido na gestação. — disse, num tom leve demais para não ter veneno escondido.
Érica virou o rosto para ele, levantando uma sobrancelha.
— Horrível é quando o marido não entende. — retrucou, com a calma treinada de quem já conhecia cada defeito dele. — Ter filho é maravilhoso. — deu de ombros, serena. — Mas tem mulher que realmente passa muito mal… por isso eu parei na Laura.
Frederico virou a página do jornal, sem olhar para ninguém, a voz saindo firme, seca, cortante.
— Tem gente que confunde enjoo de gravidez com enjoo de caráter. — soltou, como quem comenta o clima.
Silêncio. Só o farfalhar do papel.
Ele continuou, impassível.
— E tem casal que prefere acreditar nessa mentira conveniente… — virou outra página, sem pressa. — Porque admitir a verdade exigiria coragem.
Levantou os olhos por um segundo, mirando Felipe, depois Érica.
— É muito mais fácil culpar o enjoo do que assumir que não tiveram outro filho porque alguém não quis. — disse, cada palavra pontual como um bisturi. — E não foi a mulher.
O jornal voltou a subir, encerrando o assunto como se nunca tivesse sido aberto.
Felipe respirou fundo, o orgulho mordendo por dentro. Passou a mão pelo cabelo, irritado, e deu um sorriso curto, daqueles que não chegavam aos olhos.
Érica manteve a coluna ereta, o rosto impecável, mas a mão tremeu levemente ao ajustar o guardanapo sobre o colo.
Ela não olhou para Felipe. Nem para ninguém.
Olívia observava tudo em silêncio, o garfo parado no meio do caminho. Era impossível não sentir o peso daquela mesa, as tensões, as feridas velhas, o jeito que uma frase de Frederico conseguia expor rachaduras que ninguém mencionava.
O silêncio caiu por alguns segundos.
Olga limpou a garganta.
— Frederico… por favor. — pediu, em tom baixo. — Não começa.
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