POV Heitor Montenegro
O som do relógio na sala parecia martelar meu crânio. Cada tique-taque me irritava como uma gota d'água caindo no meio de um deserto.
Célia falava com alguém no telefone. Elena chorava no quarto, reclamando das dores, das cólicas, da gravidez que eu nunca pedi. Rafael andava de um lado para o outro, sorrindo como um abutre que sente o cheiro de carniça.
Eu andava. De um canto a outro. O whisky queimava na garganta, mas não aquecia nada.
Então o interfone tocou.
— Sr. Montenegro, um oficial de justiça está aqui embaixo. — A voz fria do segurança.
Meu coração parou.
Desci.
Vi o envelope. O carimbo. O peso de mil punhais cravando meu peito. Peguei. Assinei. Voltei. Subi devagar. Cada degrau parecia puxar uma tonelada. Célia me olhou, confusa.
— O que foi?
Eu não respondi. Rasguei o envelope. Li.
“Pedido de divórcio litigioso. Anexo: provas de violência física, moral, psicológica. Pedido de indenização. Pedido de medida protetiva.”
A mão tremeu. O papel caiu.
— NÃO! — O rugido explodiu. Um trovão rasgando a casa inteira.
Célia se levantou num pulo.
— O que aconteceu?
Eu chutei a mesa. Os copos voaram. A garrafa de whisky espatifou no chão.
— ELA QUER O DIVÓRCIO! — Gritei, cuspindo cada sílaba como se fosse veneno. — ELA SE ATREVEU!
Célia tentou se aproximar.
— Calma, Heitor. Vamos resolver.
— Resolver? — Avancei. Segurei o braço dela com força. — Ela destruiu tudo! Tudo!
Elena apareceu na porta, pálida, segurando a barriga.
— Heitor… — Ela sussurrou, a voz tremida. — Por favor, não…
— VOCÊ! — Apontei pra ela, os olhos injetados. — Você nunca foi nada além de um brinquedo.
Elena caiu no chão, chorando, as mãos protegendo o ventre.
Célia me empurrou.
— CHEGA! — Ela gritou, a voz cortante. — Você vai matar a única coisa que te resta!
Eu parei. O peito arfando. O suor descendo pelo rosto.
Então… ri.
Um riso doentio, quebrado.
— Ela acha que vai me destruir? — Passei a mão no rosto, maníaco. — Ela vai ver o que é destruição.
Célia me segurou pelos ombros.
— Tente se acalmar!
— Ela é minha. — Murmurei, os olhos vidrados. — Sempre foi. Sempre vai ser.
— A gente vai resolver. — Célia sussurrou, tentando me acalmar. — Vamos usar os contatos. Vamos virar o jogo.
Mas por dentro, eu já sabia. Ela tinha puxado o pino da granada. E eu estava pronto para morrer abraçado na explosão.
***
— Eu… eu faço.
Eu passei a mão no cabelo dela, como se fosse uma mãe orgulhosa.
— Boa menina. Agora, vai se recompor. — Me aproximei ainda mais. — Lembre-se: você pode ser a heroína dessa história. Mas só se fizer exatamente o que eu mandar.
Ela assentiu, trêmula. Eu me virei para a janela. O céu começava a escurecer, tingido de vermelho. Um presságio perfeito. A guerra estava só começando. E eu nunca perdi uma guerra.
***
POV Rafael Montenegro
O quarto dela ainda tinha o cheiro. Entrei devagar, fechando a porta atrás de mim como quem prende um segredo. O silêncio era tão denso que doía nos ouvidos. Caminhei até a cama. Passei a mão no lençol, devagar, quase com carinho.
— Isa... — murmurei, baixo, a palavra dançando na boca como um veneno doce.
Sentei na beirada. O colchão afundou, lembrando o contorno dela. Fechei os olhos. E lá estava ela. No meu imaginário. Nos meus delírios. A risada contida. O olhar de raiva. O cheiro de medo misturado com desejo. Passei a mão nos próprios braços, arrepiado. Ela estava em todo lugar. Na fronha. No abajur torto. No reflexo do espelho. Abri a gaveta. Vazia. Ela tinha levado tudo. Mas eu ainda podia vê-la. Ajoelhada. Tremendo. Respirando rápido.
Eu sorri, devagar. Um sorriso torto, ferido, doente.
— Você acha que venceu, não é? — falei, encarando o vazio. — Acha que pode fugir. Mas você já é minha. Já foi marcada.
Levei a mão ao rosto. O perfume imaginário dela me invadiu.
— Você não entende... — sussurrei, fechando os olhos com força. — Eu fui feito pra você. Eu existo pra você.
Inspirei fundo. O peito doía, como se algo pulsasse errado.
— Eles acham que podem me parar. Que podem esconder você. Mas ninguém vai te amar como eu. Ninguém vai sentir sua respiração no escuro como eu.
Inclinei o tronco pra frente, os cotovelos nos joelhos. Segurei a cabeça entre as mãos. O suor frio escorria pela nuca.
— Eu vou esperar. — Respirei fundo. — E quando tudo desabar... você vai lembrar. Que o único que te vê de verdade sou eu.
Fiquei ali. No quarto vazio. No silêncio cheio de fantasmas. Naquela noite, eu não era um homem. Eu era a sombra dela. A cicatriz viva que ela não ia conseguir apagar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”