POV Heitor Montenegro
Andei pelo corredor, chutando um vaso vazio. As mensagens ainda vibravam no celular. Mas agora eu não lia. Só sentia o pulsar do sangue nas têmporas, quente, pulsante, como uma sirene dentro da cabeça.
Célia me seguiu, falando baixo, como se estivesse tentando domar um animal selvagem.
— Precisamos pensar. Com frieza.
Parei no pé da escada. Olhei pra ela. O rosto duro, os lábios tremendo, mas os olhos... os olhos ainda faziam cálculos.
— Ela acabou com a nossa imagem, mãe. — Minha voz saiu rouca, um sopro rasgado. — As ações, os contratos, o conselho… tudo virou pó em menos de 24 horas.
Célia ergueu o queixo.
— Então a gente vai criar outra imagem.
Fiquei em silêncio. O ar da sala parecia mais denso, pesado.
— Eu tenho um plano. — Ela continuou, aproximando-se. — Nós temos vídeos, prints, áudios… todos os pequenos surtos dela. Aqueles momentos em que ela chorava, gritava, quebrava coisas.
— Você gravou tudo? — perguntei, a voz embargada.
Ela abriu um sorriso fino.
— Sempre gravei. Para proteção. Ela sempre foi instável. E as pessoas adoram uma mulher instável para crucificar.
Levei a mão à boca, passei os dedos pelo queixo. Por um instante, me vi no reflexo do espelho da sala. Um homem despedaçado, mas ainda tentando segurar as rédeas do próprio inferno.
— Vamos usar isso. — Célia disse, como quem oferece veneno num cálice de cristal. — Vamos mostrar ao público que ela é instável, emocionalmente desequilibrada. Que tudo isso foi uma grande encenação de uma mulher perturbada.
Fiquei olhando para o chão. As imagens da Isadora gritando, chorando, jogando objetos contra a parede. As gravações que eu mesmo tinha ignorado, que achava só “birras de mulher fraca”. Agora, podiam virar a nossa arma.
— Vai colar? — perguntei, baixo.
Célia se aproximou ainda mais, segurou meu rosto entre as mãos.
— Se a gente fizer direito, vai. O público não gosta de mulheres descontroladas. Eles preferem a narrativa fácil, a mulher histérica contra o homem calmo.
Fechei os olhos. Por um segundo, vi ela. Isadora. Rindo num domingo antigo. Cantando na cozinha. O café derramado na camisa. O “eu te amo” que parecia tão verdadeiro.
Abri os olhos.
— Eu não quero perdê-la. — murmurei. — Eu só queria…
Célia apertou meu rosto com força, as unhas machucando minha pele.
— Você já perdeu. Agora, você só pode decidir se vai cair sozinho ou se vai arrastar ela com você.
O ar sumiu dos meus pulmões.
— Eu... eu vou pensar. — respondi, me afastando.
Subi as escadas sem olhar pra trás. O celular ainda vibrava na mão. As ações caindo, os comentários se multiplicando. Mas agora, na minha cabeça, só havia um sussurro. Arrasta ela com você. E naquele eco, eu percebi. A guerra ainda não tinha acabado. Ela só estava começando.
***
POV Isadora Ferraz



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