POV Isadora Ferraz
A tampa do teste tremia na minha mão como se carregasse todo o peso do meu passado, do meu presente e de todos os futuros que eu ainda nem tinha coragem de imaginar. O relógio marcava cada segundo como se fosse um tiro.
Um minuto. Dois. Três.
Fechei os olhos. Queria abrir a porta, jogar o teste fora, abraçar Olívia e dizer que tudo não passava de uma paranoia. Mas não consegui. Abri devagar. O mundo parou.
Duas linhas. Duas. A respiração faltou. As pernas cederam. Apoiei na pia, o azulejo gelado na minha pele quente.
— Não... — minha voz saiu como um soluço engasgado. — Não pode ser...
Senti a cabeça girar, um mar revolto dentro de mim. Eu não sabia se chorava ou gritava ou quebrava tudo. Porque ali, naquelas duas linhas, morava a última coisa que eu ainda podia chamar de “meu”. Uma vida. Dentro de mim. A porta se abriu devagar. Olívia entrou, me encontrou sentada no chão frio, o teste caído ao lado. Ela olhou. E então, sem dizer nada, ajoelhou ao meu lado e me abraçou. Eu me agarrei a ela como quem se agarra a uma tábua em alto-mar.
— Eu tô aqui... — ela murmurou, a voz embargada, mas forte. — A gente vai achar um jeito.
— Eu não posso... eu não sei... — eu soluçava, tremendo. — O que eu faço agora?
Ela me afastou só o suficiente pra olhar dentro dos meus olhos.
— Você respira. Você sente. Você decide. E depois... a gente faz o resto juntas.
Ali, no chão gelado do banheiro, eu percebi que a guerra fora de mim agora era menor do que a revolução dentro. E, de algum jeito torto, entre o medo e o milagre, eu senti: eu estava viva.
Quando voltei para o quarto, o silêncio parecia uma manta pesada demais para o meu corpo magro. Olívia me acompanhava, mas ficou quieta. Eu sentei na beirada da cama, segurando o teste como se fosse uma flor murcha.
Duas linhas. Uma confirmação que, em qualquer outro universo, teria sido meu maior sonho. Eu sempre quis ser mãe. Desde menina, eu me via balançando um bebê no colo, escolhendo nomes, contando histórias antes de dormir.
Mas agora... Agora, o sonho tinha gosto de metal na boca. Porque o pai... era Dante. E ele deixou claro, tão claro quanto um tapa no rosto, que não queria filhos. Eu fechei os olhos, sentindo uma lágrima escorrer quente pela bochecha. Minha mão subiu até a barriga, ainda lisa, silenciosa, mas agora palco de uma vida.
“Eu sempre sonhei com você”, pensei, sentindo o peito arder. “Mas não assim. Não no meio dessa guerra. Não quando eu mesma não sei onde vou dormir amanhã.” Me recostei na cama. O quarto parecia enorme, cavernoso, cheio de fantasmas. Lembrei das palavras dele na brincadeira: “Eu não quero filhos.”
E eu acreditei. E eu aceitei. Mas o destino, esse escritor sádico, tinha outros planos. Fechei os olhos, respirando fundo. Em quase três meses, minha vida virou um campo minado. Eu perdi uma casa, ganhei uma guerra, fugi de um marido, perdi outra vez, reencontrei um amor, quase perdi de novo.
Agora, no meio desse terremoto, uma nova vida crescia. Eu não sabia se ria ou se chorava. Talvez as duas coisas. Segurei o teste contra o peito, como se fosse um escudo ou uma prece. Porque mesmo quebrada, mesmo com o medo engolindo cada pedaço do meu ser, eu sabia: ali dentro, batia um começo. E pela primeira vez em muito tempo… eu não estava totalmente sozinha.
O celular vibrou na mesinha ao lado. O som me pareceu um trovão no meio do silêncio espesso. Eu sabia quem era.
Dante.
O nome dele piscava na tela, como um farol tentando me puxar de volta. Fechei os olhos, respirei fundo. Passei os dedos pela tela. Atendi.
— Isa? — a voz dele veio baixa, rouca, carregada de uma preocupação que só piorava tudo. — Tá tudo bem? Você sumiu desde ontem.
Fechei os olhos, sentindo o choro querendo voltar.
— Eu tô... eu tô bem. — menti. Mal.

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