Os poucos dias que se passaram foram os mais tristes desde que entrei naquela casa. Davi ficava o tempo todo com Shirley, me recusando veementemente. Ela, por sua vez, esfregava aquilo na minha cara. Cheguei até a me compadecer, pois talvez ela tivesse se sentido daquela mesma forma desde que começamos naquela casa, onde Davi a rejeitava.
Enzo? Bem, com toda a bipolaridade dele, conseguiu me deixar em stand by. Parou pouco tempo em casa e quando esteve, ignorou a minha presença.
Tentei dar um tempo para Enzo. E também para mim.
Enfim chegou o tão sonhado e esperado dia de receber meu primeiro salário. Aayush me entregou o envelope e disse, com um sorriso:
— Use com sabedoria.
Respirei fundo e ri:
— Prometo que farei isso. Até porque, as decisões que tomei contando com esse dinheiro não foram nada sábias.
— O que importa é que agora você tem esse dinheiro em mãos.
— Enzo... está em casa?
— No escritório.
— Será que... ele me receberia?
— Sim, ele a receberá. Tenho certeza disso.
Acompanhei Aayush ao escritório de Enzo. Passando pela sala, vi Davi vindo da escola, sendo recebido por Shirley. Embora ele não tivesse chegado sorridente e nem dado um abraço nela, ainda assim me doeu.
Nossos olhos se encontraram e eu sorri. Mas Davi não correspondeu. Tive vontade de chorar. Mas me contive.
Aayush bateu na porta e Enzo disse que entrasse. Quando ele deparou-se comigo atrás do assistente, pareceu não muito satisfeito.
Ok, eu sabia lidar com aquela frieza dele. Sempre soube discernir o homem de gelo e o de fogo. E dar o que cada um dos dois queria.
— Preciso falar com... — eu diria “você”, mas sabia que naquele dia ele era o meu “senhor” — com o senhor. — minha voz soou fraca e falha.
Aayush saiu e fechou a porta.
— Senhor? — Enzo disse de forma irônica.
— Senhor. — repeti. — Afinal, somos patrão e empregada, não é mesmo? Dono e brinquedo. — não contive o mesmo tom sarcástico que ele usou.
— O que você quer, Maria Fernanda?
O “Maria Fernanda” doeu como um soco no estômago. Aliás, meu estômago reagiu e tive um forte enjoo. Dei um passo para trás, a fim de não sentir o perfume dele, tentando não inalar o ar que lembrava a masculinidade daquele homem.
— Eu gostaria de pedir para sair hoje.
— Sair? — ele pareceu despertar.
— Sim.
— Para onde? Quanto tempo?
— Hoje. Para onde... bem, isso não lhe diz respeito.
— Claro que me diz respeito.
— Não, não lhe diz respeito. — levantei o queixo, encarando-o.
Enzo não era meu dono. Por mais que eu o amasse, ele continuava sendo só o meu patrão. E pelo visto nada mudaria aquilo.
— Terei que descontar o seu dia.
— Pode descontar — falei imediatamente.

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