— Eu... não gosto muito de falar sobre isso.
— Mas certamente já falou com o seu psiquiatra e o seu psicólogo. Então... não tem problema falar para mim.
— Eu jamais falei com o meu psiquiatra e o meu psicólogo sobre isso.
Maria Fernanda deitou a cabeça no meu ombro e me olhou por baixo:
— Como assim? O objetivo da terapia e justo isso.
— Como eu disse, não me sinto à vontade para falar sobre isso... principalmente com um estranho.
— Eu... sou uma estranha para você, Enzo?
Alisei a bochecha dela demoradamente, sentindo sua pele macia, morna e delicada:
— Não, Maçãzinha. Você não é uma estranha para mim.
É só a mulher da minha vida, caralho! E você pode tentar me dopar mil vezes, que ainda assim te amarei outras duas mil.
Respirei fundo:
— Eu tive tudo na infância.
— Inclusive amor?
Amor? O que era amor, para uma criança?
Amor era o que eu, como pai, dava para Davi. Era querer que meu filho ficasse protegido para sempre de todo o mal. Era desejar que ele nunca crescesse para caber nos meus braços para sempre. Era dizer “não” para algumas coisas, levando em conta o bem dele. Era levantar pensando nele e dormir do mesmo jeito. Era velar seu sono. Era não dormir quando ele estava doente. Era saber que parte de mim morreu quando vi Amanza apontando aquela arma para ele.
— Eu tive tudo que o dinheiro podia comprar. — me limitei a responder.
— Sua mãe era legal com você?
— Dentro do possível, sim. Mas para mim talvez “legal” não seja o mesmo que para você.
— E o seu pai?
— Eu raramente o via.
— Por quê?
— Trabalho, viagens... ou talvez ele simplesmente não quisesse estar perto de nós.
— Você... sente falta dele?
— Não. Acho que ninguém sentiu a morte dele.
— E... como ele e sua mãe se conheceram?
— Diz a história que eles se apaixonaram. Minha mãe abriu mão da herança para ficar com o meu pai. Ele, por sua vez, escolheu a si mesmo do que a família que ela tentou criar. Acho que tudo foi um lance de negócios entre eles. Ou talvez eu esteja enganado. Não tem como saber a verdade sobre o que se passava em suas mentes. Eu lembro que eles brigavam muito. Os motivos eram sempre os mesmos: as traições do meu pai. Mas hoje eu tenho dúvida se ele tinha várias mulheres ou somente uma, que era a mãe de Zadock. Como nós dois temos quase a mesma idade, é provável que o caso deles seja de muito tempo. Meu pai mantinha duas famílias. Mas a que eu fazia parte era a que ele pouco se importava.
— Ele foi horrível quando deixou tudo para Zadock.
— Na época eu era um inconsequente.
— Mas eu te odeio. — ela disse as palavras de forma lenta e bocejou.
— Eu duvido uma grávida que durma mais do que você. — observei, não contendo o riso.
— Eu... nunca mais vou transar com você. — falou, tocando o meu pau, que deu sinal de vida na mesma hora.
— Isso é provocação. — sussurrei no seu ouvido.
— Eu nunca mais vou transar com você... porque tenho a impressão de que vou dormir para sempre. — senti seu corpo ficar relaxado demais.
A peguei no colo com dificuldade, pois seu corpo estava escorregadio. Meu tornozelo doeu um pouco menos, mas ainda dava sinais de que não estava normal.
Puxei uma toalha, a levei para o quarto, enxuguei-a na cama, onde ela já se aninhava no travesseiro. Vesti Maçãzinha com uma camisola, sendo que ela mal conseguiu virar o corpo para me auxiliar.
— Enzo? — ela disse com os olhos fechados.
— Fale, Maçãzinha.
— Amanhã, quando eu acordar... você pode... continuar sendo esse Enzo?
Senti minha cabeça latejar e meus lábios tremerem levemente:
— Prometo... que vou tentar.
— Obrigada. — ela forçou um sorriso e adormeceu.
Toquei seu nariz, para verificar se respirava. Mas sim, ela respirava. E dormia feito um anjo. Um anjo sonolento.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...