— Não finja que está dormindo! — ouvi a voz de Enzo ao longe.
Quando ele me sacudiu, abri os olhos, tentando lembrar de onde eu estava.
Era como se uma névoa encobrisse o quarto todo. Sentei-me na cama com dificuldade e tentei assimilar o que estava acontecendo.
— O que você faz... com a toalha amarrada ao corpo?
Olhei para a toalha branca envolta do meu corpo. Senti meu coração batendo rápido demais. E, para completar toda a confusão do momento, Mary deu um salto na minha barriga e eu podia arriscar que foi um mortal duplo carpado. Acho que minha menina seria ginasta, porque não parava de saltitar um minuto sequer.
— Eu... não sei. — falei.
— Não sabe o que?
— Por que... estou... sem roupa.
Enzo riu:
— Agora você vai dizer que não lembra o que aconteceu! — cruzou os braços.
Aos poucos a névoa foi se dissipando. E ficou só Enzo na minha frente, com sua presença imponente. Vi um vulto pela janela e levantei rapidamente, indo na direção dele, me agarrando ao seu corpo.
Enzo levantou os braços:
— Caralho... por que você está tornando tudo tão difícil?
— Eu... estou com medo.
— Deveria ter pensado nisso quando mentiu para mim.
— Eu não menti, Enzo. Eu... realmente senti a presença estranha dele. — meu olhar seguiu para a janela.
— Dele quem?
— Do vulto. Eu... não quero ser levada.
— Levada para onde?
— Para... eu... não sei. Para onde ele me levaria?
Enzo me abraçou de forma leve. Fechei os olhos e deitei a cabeça em seu peito. A minha cabeça estava fodida.
Lembrei vagamente das palavras de Enzo: “vá embora”. “Vou embora com a nossa filha”. “Você é uma mentirosa”.
Me afastei dele e lembrei que havíamos brigado. E... creio que ele tenha me mandado embora.
Andei lentamente em direção à mesa que ficava próxima da sacada e peguei a jarra, enchendo um copo de água. Bebi tudo de uma vez. Minha boca estava seca. Bebi outro copo. E outro. E o último fez com que o líquido da garrafa acabasse.
Olhei pela janela e observei o jardim. Minha memória remeteu-me ao Ronald Miller no cortador de grama. Ele batia na árvore. E eu jogava uma calcina para Enzo, ficando nua.
Virei para Enzo e o observei demoradamente, tentando lembrar com mais clareza de tudo que tinha acontecido. Olhei para as malas e lembrei de nós dois no closet eu procurando a minha mochila.
Então tudo veio à minha mente, mesmo que de forma lenta. E não lembrava onde estava a minha mochila. E não tinha encontrado nenhuma das peças de roupa que tinha trazido quando vim trabalhar naquela casa, como babá.
Mordi o lábio, percebendo que realmente era hora de partir. E eu não entendia porque eu não conseguia sentir o que acontecia tanto quanto deveria.
— Teria algum problema... se eu quisesse encontrar Davi vez ou outra? — perguntei.
— Você só pode estar louca.
— Eu achei que... não seria legal você me separar dele. Davi... me chama de mãe.
Enzo me olhou por alguns segundos antes de dizer:
— Will está te esperando. Ele já sabe de toda verdade.
— E... qual seria a verdade mesmo? — perguntei, confusa.
— Essa sua brincadeira já está indo longe demais. Vá colocar uma roupa e volte para a sua casa.
Casa. Lembrei da minha casinha exatamente como a minha mãe deixou. Ela tinha cheiro de lar. Na entrada havia alguns poucos degraus largos, que levavam à varanda que cercava toda a casa.
Vi Michael sentado comigo no degrau. Ríamos de algo que nem tinha graça. Mas ainda assim ríamos.
Senti o cheiro de fritura vindo da cozinha e meu pai gritando que era hora de comer. À mesa tinha eu, papai, Michael e Will, que chegava correndo, como sempre.
— Adeus, Enzo. — levantei o braço, sentindo meu coração... partido ou aliviado?
Eu não soube identificar. Tudo em mim parecia não funcionar mais.
— Aonde você pensa que vai desse jeito?
Desci o primeiro degrau e Enzo disse:
— Não é seguro para você...
— Agora é — o olhei — estou saindo da sua casa, então tudo passa a ser seguro. Foi aqui que me derrubaram e fizeram eu perder o meu filho. Foi aqui que me acusaram o tempo todo de algo que eu não fiz. Tudo que eu sentia por você, morre aqui, Enzo Asheton.
— Vem, bebê! — Will estendeu a mão na minha direção — sempre estarei aqui para você.
Eu sabia. Eu sempre soube que meu irmão estaria ali para mim, não importava o que acontecesse. Eu só lamentava o dia que ele achou que me deixar sair no colo de Enzo do hospital fosse o melhor para mim.
— “Kiss me down by the broken tree house
Swing me upon its hanging tire
Bring, bring, bring your flowered hat
We'll take the trail marked on your father's map”
Desci todos os degraus cantando. Eu realmente estava fora de mim. Ou não?
— Ela é demais? — Will deu um sorriso sem graça — Esse é o filme!
Quando Will pegou minha mão, desatei a toalha, que caiu no chão.
— Não! — Enzo correu, pegando a toalha, tentando me cobrir.
Will deu um soco na cara dele, fazendo-o cambalear.
— Eu te disse que ela era o que eu tinha de mais importante. E que eu podia errar por mim, mas não por ela.
Enzo ficou atordoado, com a mão no maxilar, o fio de sangue escorrendo entre os lábios.
Quando eu vi Aayush, foi como se tudo tivesse se iluminado. Ele olhou para o meu corpo e logo depois cobriu os olhos com as mãos.
— Vou sentir sua falta, Aayush. Mas você pode me visitar sempre que quiser. — falei.
Aayush abriu os olhos e virou-se para Enzo:
— Eu fui o culpado, senhor Enzo. Foi eu que falei com a doutora Rosana para que ela falsificasse o exame de Maria Fernanda.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...