— Sinceramente, eu não acredito que a senhora tenha bipolaridade.
— Não? — me surpreendi.
— Eu diria que a senhora é traumatizada, hipervigilante e com dificuldade de confiar, especialmente após testemunhar a tentativa de homicídio do seu próprio irmão.
Senti um leve arrepio percorrer meu corpo. Pela primeira vez eu vi Enzo de verdade. E me senti arrependida por não o entender. Ele tinha sofrido pra caralho. Era óbvio que teria problemas psicológicos depois de tudo que passou. E pelo visto não tinha nada a ver com bipolaridade. Ou, se tinha, era só a cereja do bolo.
— Sim — respirei fundo e perdi meu olhar num ponto qualquer ao imaginar o Davi pequenino correndo em direção ao pai com uma arma apontada na sua direção sendo que quem a empunhava era a própria mãe. — Não há como não haver traumas. — minha voz soou falha.
— Temos aí rejeição e abandono parental. Perda simbólica de identidade, quando a sua herança foi dada inteiramente à sua irmã. São bastante pontos a serem considerados para fechar um diagnóstico, se é que me entende.
— Se a senhora pudesse arriscar um diagnóstico, levando em conta sua experiência, doutora, qual seria?
— Eu não posso “arriscar” um diagnóstico, senhora Asheton.
— Por favor — implorei, com as mãos em prece — eu preciso ter ao menos uma ideia do que eu posso ter.
A médica suspirou e abaixou a cabeça, evitando me olhar:
— Eu arriscaria, prematuramente, um transtorno de estresse pós-traumático, que costumamos chamar de TEPT.
— Por que isso e não bipolaridade? — fiquei curiosa.
— Seu trauma me parece real e grave, especialmente por ter presenciado a situação do seu irmão.
— Doutora, eu acho que o mundo inteiro conspira contra mim!
— Isso não é uma surpresa para mim, senhora Asheton. Não depois de todo seu passado e a carga que traz desde a infância.
— Eu quero confiar.
— Mesmo querendo, haverá dificuldade em fazer isso, senhora Asheton. — ela me olhou — Percebo também pensamentos intrusivos, reações emocionais intensas e rápidas, alternância entre controle rígido e impulsividade.
Essa parte eu já não sabia se o diagnóstico era para mim ou Enzo.
— Então... é normal eu ser paranoica?
— Você não desconfia porque é paranoica por natureza, senhora Asheton. Desconfia porque já viveu o pior cenário possível.
Engoli em seco. Eu tinha que ajudar Enzo. Ele precisava entender que o passado ficou para trás e que eu o amava sem querer nada em troca. E que jamais iria trai-lo ou conspirar contra ele. Nunca.
— O que a senhora me recomendaria?
— Psicoterapia, especialmente em abordagens estruturadas como a Terapia cognitivo-comportamental e Dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares. Os símbolos, siglas e gráficos são ferramentas fundamentais para tornar visíveis e compreensíveis os processos mentais, memórias traumáticas e comportamentos.
— Então... tem cura? — Senti as lágrimas mornas escorrerem pelas minhas bochechas.
— Sim. Com as devidas sessões indicadas. E a longo prazo.
— Medicamentos. É possível passar por isso sem medicamentos?
— Sim, é possível. Mas teríamos melhora usando um medicamento concomitante com a psicoterapia. Entraremos com Sertralina, que é um inibidor seletivo de recaptação de serotonina. É utilizado para tratar depressão e ansiedade. Esse medicamento é conhecido por sua segurança na gravidez e eficácia em TOC’S.
Claro que eu não tomaria aquela coisa. Já estava cansada demais para ter que me adaptar a uma droga que nem servia para mim e sim para Enzo.

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