Quando cheguei no mini consultório que Enzo criou para as médicas na mansão, encontrei a doutora Rosana. Coincidentemente ela era a que mais me agradava. Embora ambas fossem discretas, aquela vez ou outra me tratava como um ser humano e não um móvel.
Enzo as contratou para cuidarem de sua Maçãzinha. E elas focavam em dedicar-se à esposa dele e mais ninguém. Soavam até mal-educadas vez ou outra.
— Precisa de alguma coisa? — ela ergueu a cabeça, desfocando da tela do laptop.
Precisar eu precisava. Mas o que eu mais queria era que a conversa que eu tivesse com ela não fosse parar nos ouvidos de Enzo.
— Trago um recado da senhora Maria Fernanda. — avisei.
A médica levantou-se, arregalando levemente os olhos:
— O que houve com a senhora Maria Fernanda? — ficou preocupada.
— Ela está bem.
Me perguntei se realmente Maria Fernanda estava bem. Nos últimos tempos ela me parecia apática e pálida. Sem contar a preguiça que tomava conta de seu corpo. Raramente a víamos andando pela casa, fazendo qualquer coisa que não fosse se jogar numa cama e dormir.
Ela gostava muito de contos de fadas. E creio que Bela Adormecida era o conto que mais lhe agradava. Mas, levando em conta a gravidez de Emma, que acompanhei de perto, eu sabia que aquilo era normal em grávidas. Claro que Maria Fernanda dormia muito mais tempo. Mas ela não tinha muita opção, já que ficava naquela casa sem ter para onde ir.
E agora havia até grades. O mais estranho é que as grades não estavam ali para impedi-la de fugir. O objetivo delas era conter a Maçãzinha de Enzo do lado de dentro e não no parapeito da sacada. Creio que se ela voltasse a ficar nua para o jardineiro, meu patrão mandaria botar tapumes nas janelas e portas.
— Na verdade estou aqui para lhe fazer uma proposta, doutora Rosana.
— Uma... proposta? — arqueou uma sobrancelha.
— Uma proposta indecente. E ousada.
— Eu sou casada, senhor Aayush. — ela deu um passo para trás, atordoada — e muito bem-casada.
— Não é o que está pensando — deixei claro — mas, eu gostaria que a doutora levasse em conta que o pedido é de Maria Fernanda. E ela só não lhe fala sobre isso pessoalmente porque tem medo de que alguém descubra, principalmente porque o senhor Enzo a observa o tempo todo.
— O que é?
— Serei direto: queremos que a senhora mostre para o senhor Enzo um exame onde comprove que Maria Fernanda está sendo dopada com Zolpidem.
Ela ficou um tempo me olhando. E depois começou a rir. Tempos depois estava gargalhando.
Arqueei uma sobrancelha, surpreso:
— Isso não é uma galhofa, doutora Rosana. — expliquei.
Ela parou de rir:
— Se não é uma galhofa, você é um traidor dentro da casa do senhor Enzo. E eu contarei a ele, porque duvido que a senhora Maria Fernanda esteja a par desse absurdo que o senhor está me propondo.
— Como eu mencionei, foi ela que pediu. E a senhora pode confirmar se quiser, desde que seja discreta.
— Isso é a coisa mais absurda que eu já ouvi na vida.
— O valor que pagarei para que a doutora ajude a senhora Maria Fernanda é bem considerável.
— Eu não aceito suborno, senhor Aayush. Não me vendo. Quando me tornei médica, eu jurei que a ética faria parte da minha profissão.
— Não quer saber o valor? — fui direto.
— Farei isso pelo bem do casal e não pelo dinheiro. Sou muito humana.
— Eu sei. Jamais ousei duvidar.
Claro que eu sabia que qualquer um venderia a ética por um milhão. Mas não era meu papel julgar. Minha função era convencê-la e eu consegui.
— Meio milhão agora e o outro meio quando o exame parar nas mãos do senhor Enzo.
— E se ele achar que eu a dopei?
— Ele não vai achar... porque você terá descoberto que ela foi dopada. Será a heroína da história.
— Para quando precisam desse exame?
— Alguns dias. Sei que pode não ser muito fácil de conseguir.
— Realmente não é.
— Mas creio que senhora tenha contatos, não é mesmo?
— Alguns. Só não sei se eles se venderão.
— Todo mundo tem um preço.
Dizendo aquilo eu saí. Se tinha certeza de que ela contaria para Enzo? Não, eu não tinha. Mas eu e Maria Fernanda sabíamos, desde o início, que o plano era arriscado. Ainda assim ela optou por executá-lo. Nunca pensamos em ninguém além de Shirley para culpar.
As cartas estavam finalmente na mesa. E era hora de jogar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...