Eu não deixaria Enzo destruir a vida de Michael por conta de sua possessividade e egoísmo. Se ele cresceu sem ouvir um não ou saber o que era limites, eu o ensinaria.
Michael não merecia aquilo. Sempre se esforçou muito para chegar onde chegou. E eu acompanhei cada passo. Na vida de pessoas como nós, nada vinha de mãos beijadas, nada era fácil, tudo era fruto de muito sacrifício.
Ver meu melhor amigo ali, destruído por um homem com um ego tão grande quanto o que carregava no meio das pernas, me doeu. Me fez sentir culpa. Eu trouxe Enzo para a minha vida. E ele destruiu tudo que estava ao meu redor.
Meus pensamentos morreram no momento em que deitei na maca e senti a mãozinha de Davi junto da minha, os olhinhos fixos na tela azul sem imagem.
Ele observou o médico aplicar o gel na minha barriga e perguntou:
— Isso dói, Maria?
Sorri e alisei seu rostinho curioso:
— Não, não dói. Mas é gelado. — fiz careta.
Enzo passou o dedo no gel e esfregou nos dedos. Depois questionou o médico:
— Por que isso está gelado? Minha esposa não gostou da temperatura do seu gel.
O médico arqueou uma sobrancelha:
— O gel fica em temperatura ambiente, senho Enzo. Talvez estejam achando ele um pouquinho gelado porque a temperatura aqui dentro está baixa. É só uma questão de ajuste do condicionador de ar.
— Isso vai sair da barriga da Maria depois? — Davi quis saber, tocando o dedo no gel. — É feito de gelatina?
Respirei fundo. Era agora que Asheton pai e Asheton filho deixariam o doutor louco.
— Esse é um gel polimérico à base de água, isento de gorduras, inodoro e incolor, desenvolvido para transmitir as ondas sonoras do transdutor para a pele, eliminando o ar e garantindo a nitidez da imagem.
— Podemos ver o meu bebê? — pedi, forçando um sorriso, fazendo Enzo e Davi desfocarem de qualquer coisa que não fosse o bebê.
Davi seguiu com a mão na minha. Quando o doutor pôs o transdutor na minha barriga, vimos a imagem do bebê na tela. E senti aquela coisinha se mexendo dentro de mim. Agora os movimentos me pareciam bem claros.
Olhei para Davi e Enzo, ambos com a mesma postura, os mesmos olhos arregalados e o mesmo meio sorriso no rosto. Eram tão iguais!
— E então, doutor? — Enzo quis saber — Como está o nosso bebê?
O médico demorou a responder, o que deixou uma tensão no ar. Olhou brevemente para Enzo e disse:
— Esse é o doppler fetal — levantou o aparelho — com ele escutamos o coração do bebê.
Assim que ouvi o som do coração do meu bebê preencher a sala, foi como se o meu mundo tivesse deixado de existir. E um novo surgisse à minha frente, dentro de uma tela. O som parecia uma música, uma sinfonia, a coisa mais linda que já ouvi na vida.
— B**e rápido — Davi arregalou os olhinhos, sorrindo.
— Rápido... demais. — o médico disse, com seriedade.
— Como assim “rápido demais”? — Enzo pareceu antecipar alguma coisa.
— Há uma pequena variabilidade anormal nos batimentos fetais.
Senti um frio na barriga e meus dedos tremeram. Olhei para tela e foi como se ela se transformasse num borrão azul à minha frente.
— Como assim? — Enzo perguntou — O que isso significa?
— Estão muito acelerados. — explicou o doutor.
— B**e rápido! — Davi riu — parece uma bateria.
Mordi o lábio e tentei conter o medo que se apossou de mim. Não, eu não sobreviveria a perda do meu outro bebê.
— Pode ser só reflexo da alimentação da mãe. — me olhou, num tom questionador.
— Eu... tenho comido somente o que a nutricionista manda. — confessei.
— Nenhum alimento estimulante?
— Não. — respondi.
— Café? Chás? Bebidas energéticas?
— Não. — Enzo foi quem respondeu. — Há uma nutricionista que é responsável pela alimentação da minha esposa. Ela não bebe café, tampouco bebidas que não forem saudáveis.
Senti a lágrima morna escorrendo pela minha bochecha.
— Oi, irmã — Davi levantou o bracinho, quase tocando na tela — eu estou aqui... e vou te proteger para sempre.
Soltei um gemido emocionado, incontido. E senti a lágrima de Enzo no meu colo. O olhei e ele limpou rapidamente o rastro úmido da pele.
Os dedos de Enzo apertaram a minha mão com força e quando me olhou, os lábios se abriram para falar uma palavra que não foi emitida pela voz. Foi um balbucio. Só eu entendi: “Obrigado”.
Como eu queria dizer que o amava. Como desejei naquele momento me agarrar ao seu pescoço e explicar que eu não estava naquela prisão porque ele me botou lá e sim porque eu queria estar nela.
— É uma menina... bem agitada. — o doutor arqueou uma sobrancelha.
— Isso é bom? — Enzo quis saber — Davi também é um pouco agitado às vezes.
— Embora o feto esteja agitado demais, ainda está dentro da normalidade.
— Minha menina tem um coração que b**e rápido demais e se mexe muito? — eu ri — Por isso me sinto tão cansada. Ela não para um minuto. E junto leva toda a minha energia. — limpei as lágrimas que teimavam em escorrer dos meus olhos.
— Doutor, está tudo bem com a minha filha? — Enzo quis se certificar.
— Sim, está tudo bem. Ainda assim vou querer ultrassons com mais frequência, para acompanharmos os batimentos cardíacos com mais regularidade e os movimentos fetais.
— Ok, faremos isso — Enzo garantiu — Podemos verificar toda semana.
— Podemos levar a televisão para casa e vermos a nossa menina o tempo todo, papai? — Davi quis saber.
Enzo riu:
— Para isso teríamos que deixar a Maria o tempo todo deitada. Isso não seria muito legal.
Davi se aproximou de mim e passou os dedinhos pela minha bochecha, de forma delicada.
— Eu te amo, Maria.
Então eu desabei em lágrimas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...