— Fale a verdade, Rosana. — a outra médica disse, alterando a voz.
A doutora Rosana abaixou a cabeça, as lágrimas voltando a escorrer pelas suas bochechas.
— O exame... é falso.
— Qual deles? — perguntei.
— O que... detecta a droga Z.
Engoli em seco e olhei para doutor Liliana:
— Ou você conta em segundos o que houve, ou mando matar a sua família inteira.
— Exame falso, senhor Enzo. Simples assim?
— Como você chegou a essa conclusão? — joguei os exames sobre a mesa.
— Comparei com o hemograma, que está normal. Todos os hemogramas da senhora Asheton até agora foram dentro da normalidade. Desconfiei porque esse exame que detecta a droga Z é usado somente em contextos de emergência médica ou forense. Não é um exame que se pede do nada. A droga Z não aparece em exames de urina padrão. Ele exige exames toxicológicos específicos como o LC-MS/MS ou GC-MS para confirmar a substância no sangue ou na urina. Levando em conta que a cada troca de turnos, falamos sobre o estado da senhora Asheton, que até então é considerado normal, levando em conta os hemogramas, percebi que algo não estava certo. Em momento algum cogitamos que ela poderia estar sob efeito de droga Z. Então, do nada, me deparo com esse papel. E, ao questionar minha colega, ela não diz o que está acontecendo de fato.
Fiquei confuso e minha cabeça começou a dar um nó. Eu queria entender. Mas não sei se realmente entedia ou meu cérebro se recusava a aceitar.
Olhei para a doutora Rosana:
— Pare de chorar agora mesmo ou juro que te farei chorar lágrimas de sangue. — Levantei, dando um soco na mesa.
A doutora arregalou os olhos e abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som.
— Ok, vamos repetir todos os exames da minha esposa e qualquer alteração, nos certificaremos de que o exame... é... verdadeiro. — tentei.
— O exame não é verdadeiro, senhor Asheton. Não tem assinatura digital. E mesmo que façamos um novo exame na senhora Asheton, a droga Z não aparecerá, porque ela tem uma duração de 12 a 24 horas, sendo que o pico de concentração muitas vezes não é detectável depois das 12 horas.
Lembrei do exame ao qual me submeteram no dia em que conheci Maçãzinha naquela boate. Claro que eu teria acesso aos mais modernos e importantes exames, até pelo meu estado físico, que era desacordado e confuso. Mas entendi um pouco da questão do pico. E como a concentração do Zolpidem, que a médica chamava de droga Z, era pequena, certamente fui dopado dentro das 24 horas. Isso porque o “muitas vezes” não é mais detectável depois das 12 horas, o que significava que tinha sim chances de aparecer se tivesse sido administrado dentro das 24 horas.
— Senhor Enzo... tudo bem com o senhor? — doutora Liliana perguntou.
Não, eu não estava nada bem. Ela tinha dado um nó na minha cabeça.
— Isso significa... que você está acusando a sua colega de ter falsificado um exame para me enganar? — fui direto.
— Não é uma acusação, senhor Enzo. É uma constatação. E eu a questionei de todas as formas possíveis, mas ela fica assim — apontou para a médica — se recusando a contar o que aconteceu.
Fui calmamente até a médica e pus a mão no seu pescoço, apertando devagar enquanto a encarava:
— Ou você diz o que fez ou eu te boto sentada para ver toda a sua família morrer.
Shirley seria responsável por aquilo também? O exame falso? Mas... não fazia sentido, já que ela tinha administrado o medicamento. Então não quereria que aparecesse nos exames.
— Foi a sua esposa. — a doutora disse, quase sem voz.
Soltei seu pescoço, achando que entendi errado.
— Eu não entendi.
— Sua esposa pediu que o exame fosse falsificado e nele aparecesse a droga Z.
Sentei na cadeira, atordoado. Não, devia ter um engano. Maçãzinha e eu estávamos bem... felizes... ela não seria capaz de tentar me enganar daquele jeito.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO