POV Maria Fernanda
Nos últimos dois dias, eu não vi Enzo. E aquilo foi só a prova de que eu estava certa: finais felizes não existiam. E ele jamais conseguiria ver alguém como eu de forma igual. Principalmente... me amar.
Quando ele falou sobre preparamos Davi antes de contar a verdade, cheguei a acreditar que aquilo pudesse dar certo. Que a vontade dele fosse de que desse certo. Mas não. Foram desculpas para me levar para a cama. Mal ele sabia que não precisava me iludir. Eu iria para a cama com ele se me pedisse. Mesmo sem promessas. Porque eu o amava. E sim, aceitava migalhas. E, modéstia parte, eram mas melhores migalhas da minha vida.
— Hoje é dia de “A história sem fim” — avisei Davi. — e esse filme você vai amar.
— Mais do que “Os Goonies”? — ele quis saber, empolgado.
— É o meu segundo filme infantil preferido. Tirando os romances dos anos 80 e os clássicos das princesas, claro.
— É uma aventura?
— Sim. Mas uma aventura bem diferente da dos Goonies.
— Tem música?
— Sim. E você vai amá-la também.
Sentamos no chão, nós dois, cobertos pelas mantas. Espelhei o celular na tela gigante da TV, mas meus olhos não saíam da porta, esperando que Enzo chegasse a qualquer momento, fosse para ficar conosco ou me xingar por estar apresentando um novo filme ao seu filho.
Eu sempre amei aquele filme. Mas agora, sabendo da história de Davi e por tudo que ele passou, não me pareceu apropriado. Tinham muitas partes tristes. E, como era de se esperar, ele chorou. E eu também.
— O Artax vai morrer, Maria? — a voz dele mal saiu, de tanta tristeza.
Lembrei de Will chorando quando assistíamos e uma sensação horrível tomou conta de mim. Aquele filme tinha gosto de saudade, da minha casa, do meu sofá, do meu irmão e do meu pai. Ao mesmo tempo, tinha gosto de superação: eu tinha crescido. A vida já não era mais filmes e pipoca. E fui irresponsável de ter deixado Davi assistir.
A classificação do filme era livre, mas a história não era só fantasiosa. Também mexia com a dor e a perda.
Artax morreu no Pântano da Tristeza antes mesmo de eu dar o spoiler. Pus Davi no meu colo e o abracei com força. Senti as lágrimas mornas molhando meu ombro e sussurrei em seu ouvido:
— Artax morreu porque Atreyu ficou triste. Ele não poderia deixar a tristeza consumi-lo no Pântano. Eu não quero que você fique triste. Essa história tem as partes boas.
— Como quando aparece o Falkor?
— Sim. O Falkor não é o bichinho mais lindo que você já viu na vida?
— Sim. Mas o Artax... era o melhor amigo que um menino pode ter.
— Deixa eu te contar um segredo... — tentei animá-lo.
— Um segredo? — tirou o rostinho do meu ombro e encarou-me.
— Quando eu tiver um filho, se for um menino, ele vai se chamar Atreyu.
— Podemos chamá-lo de Artax?
— Artax? — pensei melhor — Seria uma ótima homenagem ao Atreyu, não é mesmo? Eu... gostei muito da ideia.
— Você vai ter um bebê, Maria?
Fiquei atordoada. Mas antes que eu pensasse em responder, Shirley entrou na sala. Achei que ela pudesse dizer qualquer coisa, mas não. Ficou em silêncio, me encarando.

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