MELISSA
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O meu apartamento finalmente voltou a ser o refúgio calmo e silencioso de sempre, depois que o Rodrigo e a Yanka foram embora. Mas por dentro, a minha mente gritava como uma sirene desgovernada.
O silêncio ao meu redor era uma ironia cruel, porque dentro de mim, era puro caos. E como sempre que estou prestes a surtar, pensei...Preciso falar com a Rayssa.
Peguei o celular com as mãos ainda trêmulas, ela atendeu na terceira chamada, com aquela voz mole de quem ainda estava abraçada com o travesseiro.
Ray: Melissa... me dá um bom motivo pra eu não te agredir verbalmente agora?
— A Yanka acabou de sair daqui.
O silêncio durou meio segundo. Em seguida, o barulho de algo se espatifando no chão estourou no meu ouvido.
Ray: O QUÊ?!
— Acordou?
Provoquei.
Ray: PORRA, MELISSA! É ASSIM QUE VOCÊ ME ACORDA? EU TÔ COM UMA UNHA ENCRAVADA E TU ME J**A UMA BOMBA DESSAS?!
Fiquei pensando o que uma coisa tinha haver com a outra?!
— O Rodrigo também estava aqui...
Ray: QUE TRAGÉDIA, MEU DEUS DO CÉU! MAS QUE PORRA TÁ ACONTECENDO NESSE CARALHO, EM PLENA MADRUGADA?! É A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM?
— Quer parar de gritar?
Pedi, massageando a testa.
— Você tá me deixando mais nervosa do que eu já tô.
Ray: Melissa, quem foi o infeliz que soltou esse vagabundo? Ele devia estar comendo marmita azeda na prisão, isso sim!
— Eu não sei dos detalhes... Ainda tô tentando processar o que aconteceu.
Ray: Respira e me explica tudo. Mas do começo, sem pular as partes boas.
Comecei a contar, tentei manter uma linha lógica, mas minha cabeça ainda estava confusa, então a narrativa saía toda remendada.
A Rayssa ouvia e a cada frase, soltava uma sequência de palavrões inéditos, alguns que, sinceramente, eu nem sei se eram xingamentos ou elogios disfarçados.
Ela ainda não tinha perdoado o Rodrigo, isso era nítido. E, no fundo, eu sabia, ela ainda se culpava por ter apresentado ele pra mim, e talvez fosse esse peso da culpa que alimentava tanto rancor. Ou talvez ela só quisesse mesmo socar a cara dele e pronto.
A risada escapou antes que eu conseguisse conter. A Rayssa era um fenômeno raro, conseguia ser hilária mesmo cuspindo fogo pelas ventas.
— Depois a gente se fala. Beijos. Te amo.
Ray: Também te amo, sua sonsa. Ela resmungou antes de desligar na minha cara.
Encerrei a chamada ainda sorrindo, mas o sorriso logo se desfez. A verdade é que a Rayssa não ajudou em nada. E no fundo, eu também não queria conselhos, queria apenas alguém que segurasse minha mão emocionalmente enquanto eu surtava. Mas até isso ela fazia do jeito dela, com palavrões, ironias e frases absurdas que, de alguma forma, me ajudavam a respirar melhor.
Voltei meu foco pro apartamento, comecei a organizar as almofadas, limpei a bancada da cozinha, dobrei a manta do sofá, tudo numa tentativa desesperada de afastar os pensamentos sobre o que tinha acabado de acontecer. Mas era impossível.
Rodrigo, Yanka, a história toda... parecia um buraco negro tentando sugar a minha paz.
No meio dessa bagunça emocional, percebi que tinha várias mensagens do Diego no celular. Também ligações perdidas, e eu suspirei, culpada.
— O que eu vou dizer pra ele?
Eu sequer sabia se deveria contar tudo. Como explicar que o meu ex, recém-solto, tinha aparecido aqui? Como contar que ele estava com a Yanka, que me pediu ajuda, e que eu... ajudei? E por quê?
O Diego era a minha nova realidade, eu repetia pra mim mesma, como um mantra. Ele era tudo o que eu queria. Tudo o que eu precisava.
Mas no fundo... algo ainda estava fora do lugar dentro de mim.
E talvez, só talvez, eu ainda estivesse tentando descobrir o quê.

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