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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 136

"Lorena"

Nós ouvimos o som de passos firmes no hall e, antes que qualquer um pudesse reagir, o Andrey apareceu no portal da sala de jantar. Ele estava impecável em um terno carvão, com aquele ar de quem acabou de fechar um contrato milionário sem tirar um fio de cabelo do lugar.

O Julian travou com o garfo no meio do caminho. O Érick, por outro lado, apenas ergueu sua taça de vinho com um sorriso de quem já esperava o convidado.

- Desculpem o atraso. - O Andrey disse, sua voz grave prechendo o ambiente. - Tive que resolver uma pendência com um dos nossos... credores.

Os olhos de Andrey caíram imediatamente sobre a Marcelina. Ele a encarou com um descaramento que faria qualquer outra mulher corar, mas a Lina? Ela abriu um sorriso que poderia iluminar a vila inteira e ajeitou o decote ombro a ombro, jogando o cabelo para trás.

- E quem é essa jóia rara que o Albelini está escondendo aqui agora? Albelini, eu preciso saber, onde você encontra essas mulheres deslumbrantes. - O Andrey perguntou, caminhando até ela e ignorando completamente o Julian, que já estava com o rosto começando a ganhar um tom de vermelho incandescente.

- Essa é a Marcelina Cruz, Andrey. Minha melhor amiga. Se acostume, você a verá muito por aqui. - Eu apresentei, tentando esconder o riso ao ver a Adelaide quase derrubar a sopeira de porcelana.

- Marcelina... um nome tão forte para alguém que parece tão... delicada. - O Andrey se meteu entre a Marcelina e o Julian, pegou a mão dela e, em vez de um beijo formal, ele manteve o contato visual enquanto roçava os lábios nos dedos dela.

- Delicada? - A Marcelina deu uma gargalhada vibrante que fez a Adelaide estremecer. - Você não viu nada, tigrão. Eu sou mais do tipo que causa estragos.

O Julian quase engasgou com o vinho.

- Eu adoro estragos. - O Andrey rebateu, puxando uma cadeira e sentando-se do outro lado da Marcelina, ignorando o lugar que a Adelaide estava colocando para ele ao meu lado.

- Tigrão? Sério, Marcelina? - O Julian resmungou. - Esse cara está mais para um abutre de terno. Foca aqui no Baby, esquece o felino.

- Calma, Baby, eu sou uma mulher multitarefas, tem atenção pra todo mundo. - Ela piscou para o Julian de forma atrevida, mas logo voltou os olhos para o Andrey. - Eu gostei do estilo do Tigrão. O terno é bom, mas... o olhar é melhor ainda. Ele tem cara de quem morde.

- Você vai adorar a mordida. - O Andrey provocou.

- Que horror! - A Adelaide exclamou, ganhando um olhar de reprovação do Érick que congelaria o inferno, mas eu sabia que ele estava se esforçando muito para não rir.

- Adelaide, mais vinho. - O Érick ordenou, a voz dele saiu como um trovão, com toda a tensão que ele normalmente sentiria se aquilo fosse real.

A governanta se moveu como um robô, mas eu vi o triunfo brilhando por trás da máscara de servidão. Ela se retirou e nós nos entreolhamos em silêncio. Esperamos por um longo minuto, como se realmente esperássemos que ela se afastasse, mas eu podia jurar que ela estava atrás daquela porta.

Eu me inclinei para frente e fiz um aceno de cabeça, era o sinal para começarmos a dar as informações. O Julian assentiu, o Andrey cruzou os braços, assumindo sua postura mais sombria, e o Érick segurou a minha mão sobre a mesa. Eu respirei fundo, forçando uma expressão de desespero absoluto.

- Lina, nós temos que ter cuidado com os empregados. - Eu comecei, falando baixo como se conspirasse e fazendo a voz de quem está exausta e sobrecarregada. - Mas você tem razão, o Carlos Eduardo nunca vai me deixar em paz. Ele ligou de novo.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma guilhotina. O Julian limpou a boca com o guardanapo, mudando o semblante instantaneamente.

- É verdade. Ele perdeu a paciência, Érick. Ele sabe que o Jantar do Conselho está próximo. Ele disse que se os outros cinco milhões não entrarem na conta dele até sexta, ele pega o primeiro vôo e entra naquele banquete com a certidão de casamento original debaixo do braço.

Nós havíamos começado o teatro e agora não poderíamos mais voltar atrás. Cada palavra precisava ser dita com precisão, cada detalhe daquela mentira precisava ser lançada no ar como um veneno silencioso. Eu via pelo canto do olho a fresta da porta e sabia que, do outro lado, a Adelaide estava escutando atrás da porta. E eu estava torcendo para que ela engolisse cada palavra.

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