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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 245

"Lorena"

O taxi parou em frente a uma casa elegante, uma mansão estilo colonial dos anos cinquenta, cuja fachada imponente era sustentada por altas colunas. Quem quer que morasse ali tinha muito dinheiro e isso me deixou um tanto apreensiva, pois certamente teria algum contato com os Albelini. Mas eu precisava arriscar, ficar na boate já estava insustentável e, talvez, os Albelini não conhecessem todo mundo.

Eu segurei a alça da minha bolsa com as mãos trêmulas, ajeitando a bata larga no corpo disfarçando mais ainda uma gestação de pouco mais de três meses que ainda mal aparecia. Eu estava exausta do expediente da boate, com as olheiras profundas, mas a mensagem da Dalva com o endereço daquela senhora era a minha única chance de deixar a boate e ter um emprego pelo menos até o meu bebê chegar.

A governanta me deixou entrar, ela parecia bastante agitada e como não falou nada eu apenas a segui até a sala de jantar. O som de porcelana batendo e uma voz ríspida de uma senhora emburrada cortando o silêncio do ambiente me indicaram o motivo da agitação, havia uma tempestade doméstica em andamento.

- Eu já disse que não vou comer, Zoraide! Leve essa bandeja daqui! - A senhora idosa esbravejou a plenos pulmões, com a voz forte, empurrando o prato de sopa para longe. Seu rosto estava rígido de pura pirraça. - Eu nao vou comer! A Débora vai viajar de novo com o marido, vai me deixar trancada nesta casa vazia e eu me recuso a engolir uma única colher! É melhor que eu morra logo, assim deixo de ser um fardo para essa filha ingrata!

Uma mulher de meia idade, elegante, vestida com uma calça alfaiataria azul royal e uma camisa rosa, mas com a postura cansada, suspirou pesado, massageando as têmporas. Com certeza era a "filha ingrata". O clima estava sufocante naquela sala e os olhos da filha denunciavam que ela estava prestes a desabar em lágrimas. O meu coração se contorceu pela situação das duas mulheres, uma mãe exigindo presença e uma filha dividida entre a vida da mãe e a sua própria.

Eu não pensei, eu só quis ajudar. O meu instinto descoberto de babá acordou de forma imediata. Dei passos calmos até a mesa, puxei a cadeira ao lado da senhora idosa e me sentei a encarando, ignorando a postura em choque da filha.

- E você, que é? Mais uma das antas que sa ingrata contrata para fingir que me faz companhia, mas que não sai da frente daquelas telinhas? - A senhora idosa me encarou furiosa e eu tive que conter o sorriso.

- Olá... boa tarde. - Eu falei com a voz doce, mansa e firme que eu costumava usar com a Alice nos primeiros dias. Eu peguei a colher com cuidado, mexi a sopa devagar e olhei direto nos olhos irritados dela. - Sabe... a senhora tem toda razão em ficar brava. É horrível quando as pessoas que nós amamos viajam e a casa fica grande demais. Mas a sua filha só está viajando porque sabe que a senhora é uma mulher forte, ao contrário do marido dela... a senhora sabe como são os homens.

- Humpf! - Ela bufou. - Um bando de bebezões que se esquecem de crescer. São dependentes da mãe e depois que se casam se tornam dependentes da esposa. "Querida, onde estão os meus chinelos?"; "Querida, acho que estou doente"; "querida, isso"; "querida,m aquilo"; parece que nos tornamos as babás dos nossos maridos. O meu eu já despachei para Jesus. Era um safado mulherengo, eu tinha que ficar de olho nele.

- Mamãe! - A senhora elegante olhou para a mãe horrorizada.

- Ah, o que é, Cecília? Como se você não soubesse que o seu pai era um grande mulherengo. - A senhora idosa estalou a língua e eu abaixei a cabeça, escondendo a diversão com os comentários nada elegantes dela. - Vou te contar, meu marido era bonitão, mas não valia um vintém! Era até um homem bom, tinha o coração grande, e talvez o problema fosse esse, o coração grande demais. Quando morreu, tinha seis viúvas chorando sobre o caixão. Imagina isso?! Eu falava para todos que eram as carpideiras que eu tinha contratado porque não queria estragar a minha maquiagem. - Ela falou com uma risada maliciosa.

- Mamãe! - A senhora elegante ralhou de novo, mas não adiantou, a senhora idosa apenas estalou a língua e deu de ombros.

- Pois, então, e a senhora acha que a sua filha faz mal em acompanhar o marido? - Eu perguntei e ela estreitou os olhos.

- Bem espertinha você. - A senhora idosa comentou. - Seu marido também é mulherengo?

Capítulo 245: A tempestade doméstica 1

Capítulo 245: A tempestade doméstica 2

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