"Lorena"
O olhar da senhora idosa pareceu pesar muito mais sobre mim do que o olhar da filha, que era quem realmente decidiria se me contrataria ou não. Eu olhava para aquela senhorinha tentando manter a confiança, mas os meus olhos suplicavam para que ela facilitasse as coisas.
- Qual o seu nome? - Ela perguntou curisosa.
- Lorena. E o seu?
- Eu sou a Cecília. E aquela ali é a filha ingrata, Débora. Minha única filha, uma ingrata! - Ela apontou para a filha de forma acusatória e balançou a cabeça. Então se voltou para mim novamente. - Lorena, eu vou te fazer esse favor. Ela vai ter que contratar uma anta mesmo, pelo menos que seja uma anta que precise do emprego. - A senhora idosa soltou e se pôs a tomar a sopa com mais vigor, enquanto me contava sobre o falecido marido mulherengo.
A filha dela assistiu a cena em silêncio absoluto, as pupilas dilatadas de surpresa. Eu havia acalmado a tempestade doméstica dela em dois minutos e eu sabia que isso me favoreceria. Assim que a idosa terminou de tomar toda a sopa e começou a se distrair com as gravuras de uma revista, a Sra. Débora limpou a garganta e me chamou para o escritório privado, que curiosamente ficava próximo a cozinha, para começarmos a entrevista formal.
- Vai, filha ingrata, contrata essa anta, eu até gostei dela. - A Sra. Cecília falou como quem não quer nada, sem tirar os olhos da revista. O constrangimento da filha ao me olhar era evidente.
O escritório não era tão grande, parecia um cômodo adaptado para servir de escritório. Cheirava a livros antigos e calmaria. Eu me sentei na cadeira de madeira escura, com estofamento em linho bege, e coloquei a bolsa de forma protetora na frente da minha barriga. A mulher sentou-se à minha frente e me encarou com uma simpatia legítima. Ela tinha olhos plácidos e um rosto acolhedor, com modos calmos, muito diferente da mãe que devia ter sido uma força da natureza quando jovem, pois ainda agora parecia ter energia demais acumulada.
- Lorena, como a minha mãe disse, eu sou a Débora, a filha ingrata. - Ela deu um sorriso triste.
- Ah, ela não acha a senhora realmente ingrata. Ela só está com um pouco de ciúme. É natural. - Eu sorri e encontrei do outro lado da pequena mesa um par de olhos gentis e um sorriso grato.
- A Dalva não me deu detalhes sobre o seu passado, Lorena, mas o que você acabou de fazer com a minha mãe provou que você é exatamente o que nós precisamos. Acho que você percebeu que ela tem uma personalidade um tanto dominadora. - A Sra. Débora falou, a voz mansa. Eu sorri, compreendendo bem o que ela disse. - O salário é excelente, mas o trabalho exige que você se mude para cá de imediato e more no emprego, pois o meu marido e eu viajamos muito a negócios internacionais. A minha mãe acha que eu sou uma cabeça de vento, que viajo só para que ele não perca os chinelos e nem se vista de forma inadequada, mas eu trabalho com ele, o que torna impossível que eu não o acompanhe em todas as viagens. Ah, e claro, você terá folgas quinzenais coincidindo com o período em que eu estiver em casa.
- Entendo, senhora.
- Você tem alguma restrição técnica ou familiar para assumir o posto?
- O seu segredo está trancado nesta casa, Lorena. O pai da sua criança não vai te encontrar aqui. E quando o seu filho nascer, você pode mantê-lo nesta casa com você. Vai ser bom ter uma criança preenchendo essas paredes de novo. Eu tenho certeza que a minha mãe ficará encantada. - Ela sorriu generosamente para mim. - Você está contratada. Quero que você faça as suas malas e comece amanhã de manhã bem cedo, pois o meu voo sai ao meio-dia.
- Senhora, muito obrigada! Eu não vou decepcioná-la. - Eu apertei a mão dela com gratidão.
- Lorena, a minha família é o que eu tenho de mais valioso e eu estou confiando o bem estar da minha mãe a você. Ela é o mais importante.
- Eu vou honrar a sua confiança, senhora.
- Eu sei que vai. Seja bem-vinda.
Eu voltei para a vila sentindo a primeira sensação de calmaria em meses, como se um raio de sol finalmente ultrapassasse a barreira fria que tinha me congelado. A vida na boate estava chegando ao fim e eu esperava nunca mais voltar. Com a ajuda da Marcelina, eu preparei a minha mala, sentindo a ansiedade crescer no meu peito. Eu ainda tinha uma coisa a fazer, eu ainda precisava me demitir da boate e como o Barão encararia isso. Eu tinha certeza que ele dificultaria as coisas e tentaria me intimidar e dessa vez eu não tinha o sobrenome Albelini para barganhar.

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