"Érick"
Eu estava furioso e pronto para colocar aquela traidora outra vez na rua. Mas o calor do corpo da Victória contra o meu terno escuro não carregava a calma e tranquilidade que eu sentia antes, ela se colocou em minha frente com uma determinação quase tirana. Suas palmas, espalmadas com força no meu peito, travaram o meu avanço até a Adelaide. Atrás dela, perto do aparador, a Adelaide manteve os braços cruzados, sustentando aquele sorriso de canto desafiador que parecia zombar da minha autoridade na minha própria casa.
- Calma, Érick... meu querido... escute o que vou te dizer. - A Victória falou, a voz mansa e linear, como se tivesse ensaiado o discurso.
- Você ficou louca, Victória? - Eu perguntei com uma irritação que estava crescendo dentro de mim. - Eu coloquei essa mulher para fora da minha casa por espionagem e quebra de sigilo. Quem te deu o direito de trazê-la de volta?
- Érick, meu querido, controle-se. Não faça uma cena na frente dos funcionários no nosso primeiro dia de casados. - A Victória respondeu friamente e com uma audácia que eu nunca tinha visto nela antes. - A Adelaide é a funcionária de minha absoluta confiança de quem eu te falei. Ela trabalhou com a minha família, ela conhece todos os meus hábitos, tem o pulso firme e sabe manter o ambiente controlado como eu gosto. Ela é o que precisamos agora que nós estamos casados.
- Eu não quero saber com quem ela trabalhou, Victória! Eu não quero essa mulher na minha casa! - Eu gritei num estado de pura fúria enquanto eu tentava empurrá-la sutilmente para o lado para alcançar a governanta. - Essa mulher me apunhalou pelas costas. Eu não vou manter uma serpente debaixo do meu teto.
- Ela não te traiu, Érick. Ela apenas tentou te proteger e te alertar contra as mentiras daquela babá oportunista. E você só está irritado com ela porque ela foi a mensageira das notícias ruins. - A Vicky ergueu a voz, a lógica dela se infiltrando em minha mente.
- Você não me ouviu? - Eu a encarei irritado. - Eu expulsei essa mulher daqui porque ela me vendeu, Victória! Ela me traiu! E você quer que eu a engula? - Eu rosnei, os dentes trincados de ódio, olhando para a Adelaide que continuava me observando sem dizer nada, mas com um deboche escancarado.
A Victória semicerrou os olhos verdes, e por uma fração de segundo, a arrogância que eu vi na noite da discussão sobre a lua de mel voltou a vazar pela feição dócil dela. A voz dela desceu para um sussurro ríspido, ditando as regras com uma frieza assustadora.
- Você me deu a sua palavra de honra no escritório de que eu poderia trazer quem eu quisesse. Essa casa agora é nossa, Érick. É tão minha quanto sua! - A Victória tinha uma rigidez que me surpreendeu. Aquela mulher na minha frente não se parecia em nada com a mulher que eu pedi em casamento dez dias atrás. - Ou você não é um homem de palavra?
Aquilo mexeu com um orgulho profundo em mim. Eu sempre cumpria a minha palavra. E eu tinha sido um idiota por não pedir informações da tal funcionária antes de concordar. Merda! Eu tinha sido um idiota em muitas coisas e agora eu começava a ver.
- Você me disse que eu poderia trazer quem eu quisesse, que a casa era minha. - A Victória continuou falando. Ela tinha todos os argumentos muito bem definidos. - Eu fui compreensiva nas últimas semanas, meu amor. Eu apoiei as suas obrigações corporativas, engoli o meu orgulho e aceitei abrir mão da nossa lua de mel nas Maldivas por causa das auditorias do Balthazar De La Vega. Eu cedi em tudo o que você quis por pura discrição. O mínimo que você deve fazer agora, como um homem de honra, Albelini, é cumprir o seu acordo de marido e aceitar a minha governanta. O casamento foi assinado há duas horas. A estrutura desta casa agora é minha de papel passado. E a Adelaide fica.


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