"Lorena"
Trinta dias inteiros haviam se passado desde que eu havia me demitido da boate e deixado para trás o uniforme da Scarlat. Trinta dias sem ir a vila, morando no emprego e cuidando com todo o carinho da D. Cecília. A Dalva não tinha me conseguido um emprego, ela encontrou para mim um refúgio perfeito, um lugar tranquilo e totalmente fora do radar do Albelini.
A D. Débora e o marido passavam a maior parte do tempo em viagens internacionais a negócios e os quatro funcionários eram todos gentis e amigáveis. Aquela casa era a calmaria de que a minha mente esgotada precisava para não enlouquecer.
Eu era tratada com gentileza naquela casa e a D. Cecília me oferecia um carinho comovente. Ela estava completamente fascinada com a possibilidade de me ensinar tricô e fazermos juntas um enxoval inteiro para o meu bebê. E assim nós passávamos a maior parte do tempo, entre pontos, agulhas e linhas que a governanta não deixava faltar, dizendo que a D. Débora estava muito satisfeita em ver a mãe se dedicando a algo produtivo.
Mas o meu coração continuava sangrando em segredo nas madrugadas no meu quarto. Poucos dias depois que eu vim para esta casa, o Érick Albelini oficializou o casamento civil no cartório com aquela mulher. Outra vez estavam no jornal: "O casal do ano, agora de papel passado". Ver a fotografia dele de terno escuro, com aquela expressão fria ao lado de outra mulher, me atirou na miséria completa e eu me convenci de que ele havia morrido para mim e tudo o que restou do nosso amor foi o meu bebê, meu precioso bebê.
Meu filho se desenvolvia saudável no meu ventre. Eu estava no quarto mês de gestação e agora a minha barriga começava a aparecer por baixo do uniforme apropriado para uma gestante que me foi dado. A D. Cecília adorava tocá-la e ficar contando histórias para o meu bebê que ela chamava de "meu netinho". Ela era mesmo um consolo para o meu coração, mas eu ainda sentia falta da minha menina, a minha Alice. E eu sempre sentiria falta dela. E da D. Heloísa que era tão boa comigo. Eu me peguei pensando como a D. Heloísa estaria se soubesse que teria outro neto. Mas ela não podia saber.
E finalmente o final de semana havia chegado. Esta seria a minha segunda folga, mas a primeira que eu sairia da casa, pois eu tive pena de deixar a D., Cecília sozinha com uma enfermeira na primeira. A D. Débora foi generosa por isso e inclusive mandou o motorista me levar até a vila. Eu estava com saudades e ansiosa para receber o abraço caloroso da Dalva e da Marcelina. Era início da manhã quando chegamos. Eu agradeci ao motorista quando chegamos e atravessei o pátio simples, abrindo a porta de casa com a minha chave reserva.
Eu pensei que encontraria a Marcelina dormindo, ainda era cedo para a Dalva ter chegado, mas o ar sumiu dos meus pulmões no mesmo milésimo de segundo. O silêncio que eu esperava encontrar estava estraçalhado por uma discussão ríspida e tensa.
O Julian Beaumont estava de pé no centro da pequena sala de estar. Ele vestia o terno habitual, mas sem gravata, o colarinho da camisa branca frouxo e o cabelo bagunçado exalando a exaustão de quem tinha passado a noite em claro. A Marcelina estava parada na frente dele com os braços cruzados, o olhar rígido de fúria contida enquanto o encarava sem recuar um milímetro.
- Eu já mandei você sair da minha casa, Julian! - A Marcelina esbravejou. - Eu não quero saber de nada do que acontece naquela casa, eu não estou nem aí para o Albelini e o nosso acordo acabou de virar fumaça! Some daqui!
- Eu não vou a lugar nenhum, Marcelina! - O Julian respondeu com a voz grave, naquele tom impositivo. - O Albelini está insuportável! Aquela mulher colocou a Adelaide de volta na casa dele, a holding está sangrando em furos técnicos... está tudo caótiuco e eu preciso saber onde a Lorena se escondeu! Só ela pode me ajudar a frear esse trem desgovernado.
Eu não sei o que aconteceu comigo, mas ao ouvir o nome do Érick, a menção à Adelaide de volta e o desastre iminente na holding, o mundo pareceu girar a minha volta. A força das minhas pernas evaporou instantaneamente. Uma tontura violenta e avassaladora me atingiu. Eu não sei o que foi que me quebrou, mas a minha bolsa de mão escorregou dos meus dedos, caindo no chão com um estalo seco e chamando a atenção daqueles dois que ainda não tinham me notad na porta.
- Lô?! - O grito desesperado da Marcelina foi a última coisa que eu ouvi antes de o torpor me engolir e eu perder os sentidos.


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