"Lorena"
O Julian continuava com a cabeça baixa no centro da nossa pequena sala, as mãos fechadas em punhos e o rosto pálido entregando o tamanho do do dilema dele. Eu percebia que ele queria me ajudar, mas também que ele não queria ter que esconder essa situação do Albelini. Ele estava encurralado. De um lado, a lealdade ao amigo de uma vida inteira; do outro, os meus soluços e o meu desespero.
- Eu não posso, Lorena! Eu entendo o seu medo, mas eu não posso. - O Julian lamentou e se jogou na pequena poltrona lateral.
- Nem por mim, Baby? - A Marcelina soltou com a voz mansa. - É o meu afilhadinho na barriga da Lô. Eu não estou dizendo para esconder isso do Albelini para sempre, mas pelo menos por enquanto...
- Seu afilhado? - O Julian estreitou os olhos para ela. - Nosso afilhado! - Ele se virou para mim, buscando confirmação.
- Eu adoraria que fosse, Julian. Mas você vai me entregar para o Érick e eu vou ter que desaparecer. - Eu tentei como último argumento.
- Você não vai desaparecer, Lorena. E se você tentar, eu te encontro. - O Julian me encarou com aquela promessa que me fez estremecer.
A Marcelina olhou entre o Julian e eu, com a determinação de quem me protegeria a qualquer custo. Ela deu dois passos firmes e parou bem na frente do Julian, ele ergueu os olhos para ela. Ela o segurou pelo colarinho da camisa e se curvou para falar com ele.
- Então você vai ficar com essa boca fechada! Você está me ouvindo, Beaumont? Olha bem para a minha cara. - A Marcelina falou naquele tom autoritário que ela usava com ele. A agressividade dela emanando de cada poro com o único intuito de me proteger. - Se você ousar abrir essa sua boca de engomadinho para dar um único pio para o Albelini sobre esse bebê, você me perde para sempre. Eu pego a Lorena, pego a Dalva, e desapareço com elas no mundo. E eu garanto que você nunca mais vai colocar os olhos em mim nesta vida, nem que eu precise trocar de nome e fazer um transplante de rosto. Você nunca mais vai ter a mínima chance de colocar os seus olhos sobre mim. No entanto, se você colaborar e me ajudar a proteger o nosso afilhadinho, eu assumo o que rola entre nós. A escolha é sua. É pegar ou largar.
O Julian engoliu em seco, o maxilar trincando com tanta força que os músculos da face pulsaram. Ele respirou fundo, segurou os pulsos da Marcelina e a puxou para mais perto, o rosto a milímetros do dela.
- Você está me chantageando com o o que rola entre nós, Marcelina? - Ele rosnou, a voz saindo num tom baixo e intimidador. - O Albelini não é o meu santo de devoção neste momento, mas eu ainda o considero um amigo, ele está passando por um inferno só porque ele é tão orgulhoso quanto você, Marcelina. Ele se casou por pura teimosia, para provar ao mundo e a si mesmo que esqueceu a Lorena, mas não esqueceu. E agora ele foi obrigado a aceitar o retorno da megera da Adelaide para manter a palavra dele, porque ele é um homem de palavra e isso às vezes o quebra. A casa dele virou um ninho de cobras e vocês querem que eu esconda que ele vai ter um filho com a mulher que ele realmente ama?
- Ele chamou ela de puta, Julian! Mais de uma vez. - A Marcelina disparou na cara dele, sem recuar um milímetro. - Jogou uma esmola nela depois de... ah! você sabe melhor do que eu o que aconteceu. O orgulho Albelini transformou a Lô em lixo! Magoou, feriu, fez sofrer a mulher que você diz que ele ama. Se ele souber desse filho, ele usa todo o poder que ele tem para arrancar o bebê dela e ainda vai chamá-la de oportunidta interesseira de novo e dizer que ela fez tudo de caso pensado outra vez. Você tem ideia do quanto isso machuca? Ah, não, você não tem a menor ideia, afinal você é homem, riquinho, pode fazer qualquer coisa.
O Julian fechou os olhos por vários segundos longos e mortais, processando o peso daquilo que a Marcelina jogava na cara dele. O silêncio na sala era enervante. Quando ele abriu os olhos, havia uma decisão neles. Ele engoliu a lealdade cega ao Albelini.


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