"Victória"
Eu olhei para o Érick sem acreditar no que ele estava dizendo. Há mais de um mês que ele não me tocava. Ele sequer dormia comigo, o pouco tempo que passava em casa ficava trancado naquele escritório e a desculpa era sempre a mesma: a auditoria imposta pelo Balthazar De La Vega. Na verdade ele apenas me trouxe e me colocou desntro desta casa como um enfeite. Não tinha sequer se preocupado em me dar um cartão de crédito ainda.
- Érick, mas hoje é sábado! Você não fica mais em casa... - Eu tentei não elevar a minha voz e fazer uma cara de tristeza.
- Eu te avisei, Vicky, que essa auditoria consumiria muito do meu tempo. - Ele respondeu friamente.
- Eu entendo, meu querido, mas nós somos recém-casados. Eu sinto sua falta. - Eu me aproximei e toquei o seu rosto, me esforçando para sorrir. Mas ele se afastou imediatamente.
- Vicky, não é o momento para demonstrações de afeto. Nós estamos com sérios problemas na holding. - Ele parou e me encarou. - Aliás, você deveria estar preocupada também, foi a sua empresa que deixou todos os furos técnicos encontrados até agora. Me explica isso, Vicky? Como coisas tão simples estão dando errado sob os seus olhos?
- E-eu... eu não tenho ideia de como isso aconteceu, eu supervisiono o trabalho pessoalmente. Eu tenho certeza de que não é nada além de um equívoco fácil de resolver. - Eu tentei me desvencilhar do seu olhar acusatório.
- Pois então resolva. Comece a passar mais de duas horas diárias na holding e de preferência trabalhando e não na minha sala. Afinal você está sendo bem paga para não deixar furos. - O Érick disparou para mim com a voz rude e me deu as costas.
- Érick! Érick! - Eu chamei, mas ele saiu batendo a porta atrás de si.
Eu subi as escadas o mais rápido que pude e fui para o meu quarto. Me fechar na minha suíte da mansão foi o primeiro momento de verdadeiro alívio do meu dia que mal tinha começado, mas já estava me deixando com dor de cabeça. Eu me afastei da porta, desfazendo imediatamente aquele sorriso dócil e compreensivo que eu vinha sustentando há semanas na frente do Albelini e que estava cada vez mais difícil manter.
O meu rosto relaxou e eu me joguei na cama, talvez eu só precisasse dormir um pouco mais. Acordar às sete da manhã era outra coisa que eu odiava fazer, mas parecia que o Albelini não precisava dormir depois das seis da manhã e a Adelaide me lembrava todos os dias que ele exigia que os horários a mesa fossem cumpridos com pontualidade britânica.
Eu ignorei a batida na porta, eu não estava com paciência para ninguém, mas a porta foi aberta e a Adelaide entrou. Aquela mulher ignorava a minha autoridade e se comportava como a própria dona casa. Ela parou em minha frente, os braços cruzados sobre o vestido escuro de governanta e o coque severo perfeitamente alinhado. Ela me encarava a arrogante, como quem achava que tinha reconquistado a sua posição por puro mérito intelectual. Coitada!

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