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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 262

"Dalva"

Eu olhei para o jardim através da janela, perdida nos meus pensamentos. Havia se passado um mês desde que a Lorena havia se mudado para o novo trabalho e ela estava bem, melhor que antes, já não tinha mais olheiras e parecia bem mais calma, ainda que estivesse preocupada com o fato de que o Julian soubesse da gravidez. Mas ele não ia contar, ele sabia que não podia, pelo menos não enquanto essas duas estivessem dentro desta casa. Aqui as coisas estavam se tornando insuportáveis. O Sr. Albelini quase não parava em casa, a Victória exalava arrogância e a megera da Adelaide parecia vigiar cada milímetro da casa, sempre aparecendo como uma assombração. Eu tentava manter a Alice segura, evitava deixá-la sozinha e ela\ já tinha entendido. A minha princesinha me seguia aonde eu ia nesta casa.

O meu celular vibrou no bolso do avental. Eu olhei para os lados, me certifiquei de que a cozinha estava vazia e atendi em um sussurro.

- Dalva, por que você escondeu de mim que a Lorena está grávida de quatro meses do meu filho? - A voz da D. Heloísa passou pelo alto-falante, num tom severo que me fez tremer.

O meu coração parou de bater no mesmo milésimo de segundo. O segredo estava se espalhando, primeiro o Julian, agora a D. Heloísa.

- Claro que o Julian te contou. - Eu suspirei.

- O Julian já sabia disso? - Ela perguntou surpresa e eu percebi que eu cometi uma indiscrição. Ela bufou. - Não foi o Julian, foi a minha amiga para quem a Lorena trabalha.

- D-Dona Heloísa... eu... - Eu comecei a gaguejar, sentindo o suor frio na testa, mas a minha frase foi cortada pelo ruído de passos no corredor.

A Adelaide entrou na cozinha e parou ao meu lado. Ela cruzou os braços sobre o vestido escuro de governanta e o olhar de megera fixo nos meus movimentos. Eu engoli o pânico à força e mudei a minha voz para o tom inexpressivo e entediado de sempre, pensando numa desculpa rápida.

- Sim, senhora, eu compreendo perfeitamente. A senhora já avisou ao Sr. Albelini que eu devo levar a menina Alice para almoçar com a senhora? - Eu pensei numa desculpa e numa solução o mais rápido que pude.

- Excelente ideia. Eu vou avisar ao Érick. - A D. Heloísa concordou.

- Sim, senhora. Mas eu preciso encerrar a chamada agora, senhora, pois já está no meu horário de buscar a menina Alice na escola. Eu a levarei direto para a sua casa. Até breve.

Desliguei o celular antes que a Dona Heloísa pudesse falar qualquer outra coisa e o guardei no bolso. Me virei de frente para a Adelaide, que me encarava esperando um relatório da minha chamada.

- Quem era no telefone, Maria? - A governanta perguntou com uma autoridade ríspida, estreitando os olhos.

- A D. Heloísa, Adelaide. Ela me disse para levar a Alice para almoçar com ela. - Eu respondi friamente.

- Isso precisa de aprovação da Sra. Victória. - A Adelaide falou e eu tive vontade de rir. Quem ela achava que aquela Victória era? Sobre a minha princesinha ela não colocaria as garras.

- Isso precisa apenas da aprovação do Sr. Albelini, Adelaide. - Eu rerspondi secamente e atendi o telefone da cozinha que estava tocando. - Residência dos Albelini.

- Me desculpe pelo telefone, D. Heloísa, mas a Adelaide me vigia o tempo inteiro naquela casa. - Eu desabafei, deixando a minha bolsa sobre uma poltrona e segurando as mãos da D. Heloísa. - D. Heloísa, não fique magoada, a Lorena está apavorada, foi por isso que nós escondemos a gestação. Ela sabe o quanto o Sr. Érick é teimoso e orgulhoso. Se ele souber desse bebê... ele vai arrancá-lo dela, vai destruir a minha menina de novo. A Lô não ia aguentar perder outro filho. Ela está sofrendo muito de saudade da Alice.

A Dona Heloísa fechou os olhos devagar, processando o fardo pesado que nós estávamos carregando.

- Ai, Dalva! Eu entendo o pânico da Lorena e você agiu com a prudência necessária ao telefone. - A D. Heloísa respondeu e me puxou para me sentar ao lado dela no sofá. - O Érick cometeu uma atrocidade monumental com a Lorena e foi de uma burrice gigantesca ao se meter nesse casamento com a Victória Lemos. E olha o que isso está custando para ele... mas o que eu não entendo, Dalva, é porque você, o Julian e a Marcelina esconderam isso de mim. Vocês sabem que eu vou cuidar da Lorena.

- Ah, D. Heloísa. - Eu balancei a cabeça. - A senhora é muito boa, mas é mãe. Até quando vai suportar guardar esse segredo?

- Eu sou mãe, Dalva, mas sei que o meu filho não pode saber disso agora. Mas escute bem: eu sou a avó dessa criança. Ninguém vai tocar em um único fio de cabelo do bebê da Lorena. Não até que eu faça o Érick acordar. E acredite, Dalva, eu vou fazer.

Eu assenti com a cabeça, sentindo algum alívio me acalmar.

- Senhora, a situação naquela casa... o seu filho quase não fica lá e quando fica está trancado no escritório. A Alice está murchando de tristeza, ela quase não pronuncia mais nem uma palavra. E aquela mulher... ela aterroriza a menina. Ameaçou mandá-la a um colégio interno. O Alberto e eu não deixamos a menina sozinha nem por um segundo, mas eu estou preocupada. - Eu revelei e vi o desgosto no rosto da D. Heloísa.

- Então eu terei que ser mais rigorosa, Dalva! E mais rápida. - A D. Heloísa deu dois tapinhas na minha mão. - Agora me conte, como a Lorena está?

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