"Dalva"
Eu olhei para o jardim através da janela, perdida nos meus pensamentos. Havia se passado um mês desde que a Lorena havia se mudado para o novo trabalho e ela estava bem, melhor que antes, já não tinha mais olheiras e parecia bem mais calma, ainda que estivesse preocupada com o fato de que o Julian soubesse da gravidez. Mas ele não ia contar, ele sabia que não podia, pelo menos não enquanto essas duas estivessem dentro desta casa. Aqui as coisas estavam se tornando insuportáveis. O Sr. Albelini quase não parava em casa, a Victória exalava arrogância e a megera da Adelaide parecia vigiar cada milímetro da casa, sempre aparecendo como uma assombração. Eu tentava manter a Alice segura, evitava deixá-la sozinha e ela\ já tinha entendido. A minha princesinha me seguia aonde eu ia nesta casa.
O meu celular vibrou no bolso do avental. Eu olhei para os lados, me certifiquei de que a cozinha estava vazia e atendi em um sussurro.
- Dalva, por que você escondeu de mim que a Lorena está grávida de quatro meses do meu filho? - A voz da D. Heloísa passou pelo alto-falante, num tom severo que me fez tremer.
O meu coração parou de bater no mesmo milésimo de segundo. O segredo estava se espalhando, primeiro o Julian, agora a D. Heloísa.
- Claro que o Julian te contou. - Eu suspirei.
- O Julian já sabia disso? - Ela perguntou surpresa e eu percebi que eu cometi uma indiscrição. Ela bufou. - Não foi o Julian, foi a minha amiga para quem a Lorena trabalha.
- D-Dona Heloísa... eu... - Eu comecei a gaguejar, sentindo o suor frio na testa, mas a minha frase foi cortada pelo ruído de passos no corredor.
A Adelaide entrou na cozinha e parou ao meu lado. Ela cruzou os braços sobre o vestido escuro de governanta e o olhar de megera fixo nos meus movimentos. Eu engoli o pânico à força e mudei a minha voz para o tom inexpressivo e entediado de sempre, pensando numa desculpa rápida.
- Sim, senhora, eu compreendo perfeitamente. A senhora já avisou ao Sr. Albelini que eu devo levar a menina Alice para almoçar com a senhora? - Eu pensei numa desculpa e numa solução o mais rápido que pude.
- Excelente ideia. Eu vou avisar ao Érick. - A D. Heloísa concordou.
- Sim, senhora. Mas eu preciso encerrar a chamada agora, senhora, pois já está no meu horário de buscar a menina Alice na escola. Eu a levarei direto para a sua casa. Até breve.
Desliguei o celular antes que a Dona Heloísa pudesse falar qualquer outra coisa e o guardei no bolso. Me virei de frente para a Adelaide, que me encarava esperando um relatório da minha chamada.
- Quem era no telefone, Maria? - A governanta perguntou com uma autoridade ríspida, estreitando os olhos.
- A D. Heloísa, Adelaide. Ela me disse para levar a Alice para almoçar com ela. - Eu respondi friamente.
- Isso precisa de aprovação da Sra. Victória. - A Adelaide falou e eu tive vontade de rir. Quem ela achava que aquela Victória era? Sobre a minha princesinha ela não colocaria as garras.
- Isso precisa apenas da aprovação do Sr. Albelini, Adelaide. - Eu rerspondi secamente e atendi o telefone da cozinha que estava tocando. - Residência dos Albelini.

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