"Alberto"
O sol do início da tarde brilhava e, ainda que por fora eu estivesse perfeitamente alinhado, por dentro o meu estômago continuava retorcido com o tamanho da aflição daquela família. Eles eram pessoas boas, embora o meu chefe fosse um tanto orgulhoso. E enquanto a Maria atualizava a D. Heloísa sonre a situação da casa, eu estava observando o jardim.
Eu estava de pé perto do canteiro de hortênsias azuis. O Jardim da D. Heloísa era como um pequeno pedaço do paraíso, cheio de flores coloridas, uma grama muito verde e duas árvores frondosas sob as quais dois bancos de ferro pintados de branco permitiam que a gente se sentasse e apreciasse a paz e a beleza do lugar. E sob uma delas tinha um balanço pendurado em um grosso galho e era lá que os meus olhos estavam presos.
A menina Alice estava sentada no balanço sob a árvore frondosa. Ela segurava as grossas cordas com as mãozinhas trêmulas, mas não se mexia. Mantinha a cabeça baixa, os cabelos escuros caindo para a frente como uma cortina para esconder o rostinho infantil. Ela estava chorando. Um choro abafado, cheio de soluços longos e dolorosos que ela vinha engolindo há semanas sob o teto do patrão. Ela vinha murchando de tristeza e se isolando no quarto para fugir das garras da Victória, que sempre que podia a intimidava. Aquela menina que antes era tão falante e sorridente estava sentindo a dor de perder a mulher que a acolheu como uma verdadeira mãe, e isso era de partir o coração.
Olhar para ela me partia o coração.
Eu me aproximei dela com passos firmes na grama, me abaixei lentamente na altura do balanço, entreguei a ela uma barra de chocolate e usei o meu polegar para limpar uma lágrima que escorria pelo queixo dela.
- O que houve, Alice? - Mesmo sabendo eu perguntei baixinho, a voz mansa, só para que ela pudesse colocar a sua dor para fora. - Por que você está chorando tanto aqui fora? A sua avó te recebe com tanto carinho e você gosta tanto de vir para cá.
A Alice engoliu um soluço, apertando os dedos ao redor do chocolate, e me encarou com uns olhinhos azuis tão vermelhos e cheios de mágoa, me fazendo sentir o mais impotente dos seres.
- Tio Beto... por favor... me deixa falar com a Lolô? Mas falar de verdade, não aquela mensagem, eu tô com tanta saudade que só aquela mensagem hoje é ppouco. Aqui, eu troco o nosso segredo do chocolate pelo segredo de falar com a minha Lolô. - A Alice implorou num fio de voz e me estendeu a barra de chocolate numa súplica desesperada. - Por favor, Tio Beto, o senhor tem o celular... o senhor sabe onde ela está. Eu só quero ouvir ela dizer que me ama, uma vez só. Eu preciso! Eu estou com tanto medo.
Eu travei por um milésimo de segundo. As pupilas dos meus olhos dilataram. Senti o peso esmagador daquela súplica. Era só uma criança, não deveria estar sofrendo tanto por uma briga de adultos. Não deveria perder quem amava.
- A bruxa nova disse que eu sou uma pirralha irritante, Tio Beto. - Ela desabafou em um sussurro urgente de puro terror. Ela estava realmente com medo. - Ela disse que o papai faz tudo o que ela quer e que vai mandar o papai me colocar num internato escuro na Suíça se eu gritar o nome da Lolô de novo e que quando eu for para lá o papai e a vovó vão me esquecer e eu não vou ter ninguém que me ame. Por favor... eu prometo que vou me comportar, prometo que vou ser educada na mesa, mas eu preciso ouvir a Lolô. Só um pouquinho, Tio Beto. O papai não vai saber. Ninguém vai saber. Por favor...
A minha fúria interna contra os desatinos do patrão atingiu o limite. Eu pensei no perigo iminente que eu estava correndo. Se o Sr. Albelini farejasse por um único segundo que eu estava burlando as suas ordens e ligando para a Lorena para a menina falar com ela, ele me colocaria na rua e eu não poderia deixar a Maria e a Alice sozinhas naquela casa agora. Mas o patrão estava cego pelo orgulho ferido e eu preferia arriscar a ver aquela menina definhar de tristeza.
Eu me lembrei da doçura com que a Lorena cuidava dessa criança, como a defendia como uma leoa, como as duas pareciam ter nascido uma para a outra. Eu era leal ao Sr. Albelini, mas eu era ainda mais leal ao que eu considereva ser o certo e naquele momento, o certo era dar uma fagulha de esperança para aquela criança.
- Não chore mais, minha princesinha. Engula o choro, guarde o chocolate e ajeite o vestido. - Eu murmurei com determinação, enquanto enfiava a mão por dentro do paletó e puxava o meu celular privado. Eu me ajoelhei na grama, mantendo o celular entre a Alice e eu. - Eu vou fazer a ligação. Mas você precisa me prometer, Alice, pela sua vida, que nenhuma palavra sobre isso vai sair da sua boca quando voltarmos para aquela mansão. Nem para a Maria, nem para a sua avó e, principalmente, nunca perto daquelas bruxas. O nosso segredo fica enterrado aqui no jardim. Você me promete?


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