"Érick"
Quando eu parei o carro em frente àquele hotel sofisticado e discreto que eu reservei à tarde e entreguei as chaves para o manobrista, o ciúme e a raiva queimavam sob a minha pele, mas o que realmente me impulsionava a seguir em frente com aquela ideia louca era a saudade dela, do seu cheiro, do seu toque, mas especialmente a necessidade esmagadora de beijá-la outra vez.
O elevador subia devagar, enquanto a minha reapiração era rápida, entrocortada, e os nós dos meus dedos estavam brancos, segurando a chave magnética com tanta força que o plástico estalou.
Na minha cabeça, a tela do notebook continuava piscando a imagem do site de acompanhantes de luxo direto na minha cara e repetia para mim mesmo: a Scarlat estava vendendo programas privados. A minha doce e perfeita babá havia virado mercadoria de luxo. E eu ia pagar o preço daquela transação por puro... que merda eu estava fazendo? Eu estava casado com uma mulher que tudo o que fez foi ser paciente e compreensiva e eu estava prestes a traí-la com uma mulher que... uma mulher... a mulher que parecia ter viciado o meu corpo no dela.
Eu soquei a parede do elevador e no segundo seguinte a porta se abriu. Se eu saísse, não tinha volta. Ou eu poderia simplesmente apertar o botão para o térreo, sair dali e esquecer aquela mulher de uma vez por todas. Eu poderia? A minha resposta foi me dar conta de que os meus pés se moviam por conta própria para fora do elevador, em direção ao quarto que eu mesmo reservei. O quarto onde eu já a tinha levado outras vezes.
Eu ia arrancar aquela farsa com as minhas próprias mãos, nem que fosse o último ato da minha destruição, mas eu a destruiria para mim e a deixaria saber que não poderia negar mais a verdade, a verdade que estava naquelas fotos e relatórios que a Adelaide me entregou.
Eu passei o cartão na fechadura, ouvi o clique e empurrei a porta. O quarto estava completamente na penumbra. Eu caminhnei até o abajur no canto e o acendi, envolvendo o ambiente em uma luz baixa e dourada. Uma batida na porta e eu sabia que era ela. O meu coração travou no peito. Eu fui até a porta e um choque elétrico me paralisou quando eu coloquei a mão na maçaneta. Eu respirei fundo e abri a porta.
Lá estava ela. Usando a peruca vermelha com as pontas azuis nítidas do nosso primeiríssimo encontro no Trono. O figurino clássico, o espartilho preto apertado marcando a cintura fina e a máscara de maquiagem artística pesada cobrindo as feições do rosto. O cheiro do absinto bateu no meu rosto como uma bofetada e ela ergueu os cantos dos lábios em um sorriso desafiador. Era ela.
Ela passou por mim, tocando a minha gravata com as pontas dos dedos, de costas para mim, ela jogou a bolsa sobre o aparador perto da porta, o que me permitiu olhá-la por trás. Minha mente estava tão desesperada para que não fosse ela, que eu até imaginei que ela estava alguns centímetros mais baixa, mas era um truque de ilusão do meu cérebro em negação. Ela se virou lentamente em minha direção.
Eu bati a porta do quarto e avancei como um predador selvagem na escuridão, despido de qualquer civilidade ou modos. Agarrei a cintura dela num movimento bruto e possessivo, a fazendo soltar um arquejo de susto, e a prensei com violência contra o móvel. Enrosquei os meus dedos nos fios sintéticos da nuca dela, forçando a cabeça dela para trás, e capturei os seus lábios em um beijo devastador e faminto. Eu estava desesperado por aquele veneno.
Mas no milésimo de segundo em que as nossas línguas se colidiram e eu invadi a boca dela, assim que as suas mãos tocaram o meu rosto, o meu mundo desabou por completo, como se um terremoto de magnitude inimáginável me sacodisse. O chão sumiu debaixo dos meus pés. Um solavanco violento de repulsa e náusea me atingiu direto no estômago.
O meu corpo, que era um estúpido escravo da Lorena, rejeitou o toque de forma imediata e destrutiva. Aquela pele não tinha o calor dela. Aquele beijo mecânico não tinha o gosto dela. Não era a Lorena.
- O senhor manda! - A cópia barata e vulgar avançou sobre o dinheiro com a ganância brilhando nos olhos. - Se mudar de ideia, pode me chamar de novo.
Virei as costas, bati a porta do quarto com um estrondo violento e marchei pelo corredor do hotel em um rompante perturbado e insano. Entrei no carro e saí cantando pneus na noite, o peito sangrando por dentro e a cabeça explodindo com o tamanho do abismo onde eu havia me enfiado. A Lorena não estava na boate e não estava na internet. Então, onde ela estava?
- Merda! Não era ela naquelas fotos do site. - Eu bati as mãos no volante, com a compreensão me tomando de assalto.
Mas era ela no Trono. Era ela comigo nas outras vezes, eu tenho certeza, porque o toque da Lorena e o da Scarlet eram um só e por isso me confundia tanto. Como eu pude ser tão cego, tão idiota? Mas e nas fotos da Adelaide? Eu estava com medo de encarar que eu tivesse me precipitado, mas eu precisava descobrir, eu precisava saber qual das duas estavam nas fotos trancadas na minha mesa: a Scarlat falsa ou a Scarlat real, a minha doce Lorena? Qual delas?
E o pior de tudo é que eu não sabia onde ela estava, eu não sabia o que pensar, mas eu sabia de uma coisa: a farsa daquela sósia mal feita havia provado que a minha Fada era insubstituível, eu poderia tentar o quanto quisesse, santa ou pecadora, eu nunca conseguiria esquecê-la. Eu dirigi de volta para casa completamente quebrado, sem fazer a menor ideia de que ainda havia um verdadeiro incêndio me esperando em casa.

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