"Victória"
Me trancar nessa maldita suíte de hóspedes e andar de um lado para o outro sobre o tapete persa era a única forma de não quebrar essa casa inteira e manter o personagem. Eu estava espumando de ódio. O meu peito subia e descia rápido, que humilhação! Que humilhação!
Eu fui escorraçada do Grupo Albelini pelo Andrey D’Ávila, tratada como uma amadora que não passava de um estorvo técnico, uma incompetente. E ele ainda me disse que o contrato estava sendo rescindido com o aval do Érick Albelini e do tal sócio que o Balthazar De La Vega representava. Mas quem diabos era esse homem?
De acordo com o Andrey, eles encontraram vários furos da minha consultoria. A desculpa dele era a auditoria do Balthazar, mas eu sabia que a semente da desconfiança já havia sido plantada e não ia demorar para o sócio oculto fazer um estardalhaço e o preço das ações despencar. Mas o meu trabalho ainda não estava completo, eu ainda não tinha conseguido começar os desvios de verbas para o Simão. E agora, o que eu diria para a Verônica?
O toque estridente e específico do meu celular pessoal, escondido no fundo falso da bolsa, cortou o silêncio do quarto. Um calafrio subiu pela minha espinha ao ver o número criptografado da Verônica, que parecia até ter ouvido os meus pensamentos. Eu precisava ganhar tempo, precisava enrolar a Verônica e agarrar o Érick esta noite e o fazê-lo me colocar de volta na empresa. Eu ajustei a voz, deslizei o dedo pela tela e atendi antes do terceiro toque, como se nada estivesse acontecendo.
- Victória! Que porra está acontecendo aí? - A Verônica berrou do outro lado da linha, a voz ríspida e carregada va. - O Simão acabou de checar os painéis da Bolsa de Valores e as ações do Grupo Albelini continuam estáveis! O mercado internacional não entrou em pânico! Cadê o colapso que você prometeu que os furos de auditoria causariam? Já deu tempo para isso acontecer. E outra coisa, cadê o dinheiro que o Simão te mandou desviar?
- Verônica, calma, você sabe que...
- Calma? Que calma, Victória? Não me diz para ter calma. Me diz logo o que está acontecendo, porque o Simão falou com o contato dele no Grupo Albelini e ele disse que o seu contrato foi rescindido. O QUE ACONTECEU, VICTÓRIA? - A Verônica gritou histérica, quase estourando meu tímpano.
- Para de gritar! - Eu rebati irritada. - O contrato da minha consultoria foi encerrado hoje, Verônica, porque eles descobriram as inconformidades que o Simão mandou plantar. - Eu confessei num sussurro tenso, acuada pela agressividade da minha prima. - Ele agiu por impulso. O Balthazar pressionou o Conselho e o Albelini fez o que ele queria. Eu fui cortada. Não tenho mais acesso físico aos relatórios ou às cláusulas da Holding. Mas não se preocupe, assim que o Érick voltar para casa, eu vou fazê-lo reconsiderar.
- Sua incompetente! Imbecil! - A Verônica acabou com a minha raça de forma humilhante, as palavras cortando como vidro do outro lado da linha. - Nós te demos a pose, o portfólio de elite, o apartamentos roupas caras, o perfume de bergamota da falecida e até dinheiro para você adestrar o Albelini, e você se deixa chutar no primeiro choque de conformidade? O Simão está furioso aqui do meu lado! Se as ações não despencarem por causa do compliance, o fundo oculto dele não terá como comprar o controle da holding! Trate de encontrar outra brecha técnica, Victória! Dê o seu jeito, ou nós puxamos o tapete da sua farsa e você volta a ser a bastarda falida da empregada antes do fim da semana!

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