"Julian"
Eu estava boquiaberto com a serenidade da D. Heloísa. Claro, o Barão certamente a informou que eu estive na boate atrás de informações, mas ela não se abalou nem um pouco. Ela estava coordenando as coisas conforme o seu interesse naquela boate... ela nos enviou convites quando a Lorena e a Marcelina voltaram... e ela estava mais do que tranquila com o que aconteceria quando o Érick descobrisse.
- Eu não quero tomar café da manhã, D. Heloísa. Eu quero é entender que transação é essa que a senhora está fazendo com o Barão e há quanto tempo! - Eu vociferei, explodindo no meio da sala de estar. - O Érick está se destruindo na holding, afogado em problemas. Ele se casou com uma estranha, foi obrigado a engolir a Adelaide por causa da palavra de honra que deu e agora descobre os furos da Victória Lemos na empresa que podem causar a desvalorização do negócio, e para mim isso foi sabotagem, eu só nao tenho como provar ainda. E amis, a casa do seu filho virou um ninho de cobras e a senhora está operando como "A Fonte" naquela boate pelas costas dele? Enviando convites para que ele visse a Lorena lá? Eu não entendo! Eu pensei que a senhora gostasse da Lorena.
- Meça as suas palavras sob o meu teto, Julian Beaumont! - Ela me repreendeu com uma rigidez que me tirou o ar. - E eu gosto muito da Lorena.
A Dona Heloísa me encarou e se virou para a sala de jantar sem dar uma palavra. Eu a segui e lá ela fez o gesto para que eu me sentasse. A governanta começou a servir o café, mas a D. Heloísa a dispensou e sed encarregou de servir o café na minha xícara.
- Eu sei o tamanho da sua aflição, Julian. Eu também não estou tranquila com o que está acontecendo com o meu filho. Mas vamos conversar com tranquilidade, Julian. Como sempre fizemos. Eu vou te explicar o que eu fiz. - Ela colocou o bule de prata sobre a mesa e me encarou. - O meu filho cometeu uma atrocidade monumental contra a única mulher que realmente o amava. E a única que ele realmente ama. O Érick chamou a Lorena de prostituta interesseira e a escorraçou sem dar a ela uma única chance de se defender! Ele marchou direto para o abismo em que está com aquela Victória Lemos por puro orgulho estúpido! Acredite, eu sei tudo o que o meu filho está passando e eu tentei impedir esta catástrofe de muitas maneiras e a primeira delas foi negociando com o Barão logo que a Lorena entrou na casa do meu filho.
A realidade me atingiu como um raio, a D. Heloísa sempre soube.
- A senhora sabia. O tempo todo a senhora sabia quem ela era. - Eu estava boquiaberto.
- Quem você acha que cobriu os rastros dela? Eu só não imaginei que ela fosse despertar tanta inveja. Escute, Julian, eu tirei a Lorena daquela boate da primeira vez para salvar a integridade dela!
- Da primeira vez?
- Ah, meu Deus! Eu tenho que concordar com o Barão, você está ficando burro! - A D. Heloísa falou impaciente. - Você acha mesmo que o meu filho ia se enfiar num inferninho qualquer e eu não ficaria de olho para evitar um desastre, Julian?
- É, ninguém tem ideia. A minha sogra Rosenda tratou de esconder tudo muito bem. Eu conheci o pai do Érick no dia em que eu descobri a minha origem. Eu estava desorientada e atravessei a rua, ele quase me atropelou. Aí o resto é história, nós nos apaixonamos, ele ameaçou deixar a família para se casar comigo e a mãe dele teve que me engolir. Ele era um bom homem, não era como a mãe que era arrogante e se importava com origem, posição social e dinheiro.
- Eu me lembro dele. Realmente era um grande homem. - Eu concordei. - Mas D. Heloísa, o que isso tem a ver com o seu envolvimento na boate?
- Julian, depois que eu descobri a minha origem, eu estive determinada em encontrar a minha irmã. Nisso o meu marido me ajudou, escondido da mãe. Ele pagou um investigador e me ajudou a encontrá-la.
- E onde ela está? - Eu perguntei ansioso.
- Morta! - Ela declarou com tristeza. - Eu cheguei tarde. Ela foi jogada para fora do abrigo aos dezoito anos, sem rumo, com pouco dinheiro e sem saber o que fazer. Conseguiu emprego de dançarina num inferninho que não era nem de longe parecido com a boate do Barão. O dono era um maldito cafetão e obrigava as meninas a se prostituirem. E quando elas resistiam, ele as drogava e as mantinha assim. Foi o que ele fez com a minha irmã. Além das sur'ras. Ela morreu de uma suposta overdose de drogas uma semana antes de eu chegar até ela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite