"Julian"
Uma lágrima escorreu pelo rosto da D. Heloísa e pela primeira vez eu vi aquela mulher elegante e imponente completamente devastada. Eu toquei a mão dela, tentando dar algum conforto, e ela sorriu carinhosamente para mim e secou a lágrima delicadamente.
- O meu marido ficou revoltado. Moveu todos os contatos que tinha, fechou a boate, deu dinheiro para todas as mulheres recomeçarem e mandou aquele cafetão para a cadeia. Ele fez tudo por mim, inclusive resgatou os restos mortais da minha irmã numa cova de indigente e deu um sepultamento decente. E foi ele quem sugeriu criar a fundação, quando eu disse que queria fazer algo por mulheres como a minha mãe e a minha irmã. Mas a mãe dele proibiu que o sobrenome Albelini fosse envolvido com isso. Então ele criou uma organização blindada, que age sem estardalhaço, ajuda sem aparecer.
- Como um anjo da guarda... - Eu sussurrei e ela concordou.
- Ele blindou a organização e a forma como enviava dinheiro para ela. Ao longo dos anos ele foi me ensinando a fazer essas blindagens e a fazer investimentos rentáveis. Quando ele morreu, ele já tinha criado uma outra organização que geria o meu patrimônio pessoal, a herança dos meus pais, tudo o que o Albelini me dava e a herança dele também.
- Ele era um homem de uma inteligência notável. Um estrategista, como a senhora e o Érick.
- Sim, mas a Rosenda incutiu muitas ideias antiquadas na cabeça do meu filho. Eles se adoravam e eu não tinha como impedir o convívio. Mas de tudo, ela enfiou na cabeça do Érick essa idiotice de que todos que se aproximam dele, se não forem da elite que ela tanto adorava, são aproveitadores. E deixou a Adelaide de "herança"... mas aí é minha culpa também.
- Sua culpa?
- Ah, isso é outra história do passado. Mas o que importa, Julian, é que vocês começaram a frequentar aquela boate, e quando eu fiquei sabendo, eu investiguei em que tipo de lugar o meu filho e os amigos estavam metidos. Eu descobri furos financeiros criminosos e os piores podres do Barão no passado. Em vez de destruí-lo com a polícia, eu fiz um acordo, ele andaria na linha e eu ajudaria as garotas, silenciosamente. As que entram como a Lorena, porque não tiveram escolha, eu tento encaminhar para outros lugares... acredite, algumas gostam do que fazem e a Infernal é um lugar seguro, elas não são obrigadas a fazerem o que não querem. Embora o Barão faça aquele tipo "gerente de quinta categoria do submundo".
- Mas a senhora não age tão silenciosamente.
- Isso foi depois da Lorena. Eu precisei refazer meu acordo com o Barão. Eu o blindei e fiz um contrato de confidencialidade. Eu comprei a coleira do Barão. Eu uso a Infernal para criar uma rede de proteção oculta para blindar moças desamparadas e garantir que os canalhas da alta sociedade não destruam vidas inocentes na noite por puro capricho. Eu dito as regras, Julian. Mas no processo de blindar a Lorena eu conheci a Marcelina e a Dalva e as duas têm sido muito importantes.
O ar sumiu dos meus pulmões. As engrenagens do meu cérebro sofreram um solavanco. Mas a bomba definitiva veio no milésimo de segundo seguinte.
- Eu já estava tentando ajudá-la com as dívidas, mas o Érick se interessou por ela, então eu a investiguei minuciosamente. Eu me convenci de que ela era uma boa pessoa e poderia ser o que o meu filho precisava. Mas eu precisava saber se ela era o que a minha neta precisava. E foi usando as minhas regras na boate que eu mexi as cordas nos bastidores para que a Lorena se tornasse a babá na casa do meu filho. - Os olhos da D. Heloísa denunciavam uma ferocidade protetora indescritível.
- Como assim a senhora infiltrou a Lorena na mansão? - Eu perguntei num fio de voz, atônito.
- Eu paguei uma boa quantia para a babá anterior dar um jeito de ser demitida. E depois, causei um alvoroço no escritório da holding para que a Lorena fosse contratada. - A Dona Heloísa explicou com um pequeno sorriso.
- Alvoroço na holding? Eu vou querer saber disso? - Eu fechei os olhos me preparando para o que viria.
- Julian, a assessora do meu filho é uma das primeiras mulheres que eu ajudei através da minha organização. Uma mulher de absoluta confiança. E a recepcionista que você detesta...
- Ah, eu sabia que tinha alguma coisa errada com aquela desajeitada. Mas ela se provou leal com aquela história do Simão, então eu só a ignoro.
- Ela é muito leal e também foi "resgatada" pela minha organização. E as duas fazem qualquer coisa por mim.
- Então a desastrada marcou a entrevista para o cargo de contadora... - Eu concluí.
- Sim. E depois armou uma cena fingindo se confundir e mandou a Lorena falar com a assessora do Érick.
- O Érick não vai saber de nada, Julian! Não agora! - Ela disparou o ultimato definitivo. - Assim como você está guardando o segredo da Lorena, você vai guardar o meu.
Eu senti o sangue ser drenado do meu rosto.
- A Débora me ligou ontem de tarde. A Lorena está grávida de quatro meses do meu filho, Julian. Ela está escondida, morando no trabalho e tricotando sapatinhos de lã com medo de que o Érick tire o bebê dela. E você sabe! E se está mantendo esse segredo tem um motivo.
Eu engoli em seco, mantendo a minha carcaça, lembrando-me do colapso da Lorena no sofá no sábado.
- Se o Érick descobrir esse filho agora, no estado de fúria cega em que se encontra, ele destrói a sanidade da Lorena de vez. - A D. Heloísa externou o meu próprio medo. - A Dalva está cuidando da Alice, que também está em perigo, aquela mulher está ameaçando mandar a minha neta para o internato. E o seu papel agora, Julian, é manter o silêncio absoluto, para proteger a Lorena e os meus netos.
- Só piora! - Eu bufei.
- Julian, use seus recursos e seu fôlego para conter os danos da holding. Nós vamos locar a Victória para fora da vida do Érick. Mas se você der uma única pista ao Érick antes que eu ordene, vai colocar tudo a perder e eu juro que eu viro o seu mundo do avesso e acabo com a sua carreira antes do amanhecer. Você está comigo ou vai escolher alimentar o orgulho ferido do meu filho?
Senti o suor frio ensopar o colarinho da minha camisa branca. Olhei nos olhos da D. Heloísa, vi que ela não aceitava negação e fiz o aceno de cabeça lento, derrotado e definitivo. Eu havia assinado o pacto de silêncio de duas mulheres da vida do Érick.
- Tudo bem, D. Heloísa, mas com uma condição. No final disso, eu quero o meu amigo de volta e se ele ficar com raiva de mim, sou eu quem vai botar fogo no seu mundo.
- Gosto assim! - Ela riu. - Fique tranquilo, nós vamos trazer o Érick de volta para todos nós.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite