"Lorena"
Eu estava sentada no solário com a D. Cecília, aproveitando o calor do sol da manhã de terça feira. Nós sempre tomávamos o sol ali pela manhã e o dia estava especialmente bonito. Enquanto os nossos dedos moviam as agulhas de tricô em um ritmo calmo e terapêutico nós conversávamos. A D. Cecília tinha razão, existia algo relaxante em tricotar. Pela primeira vez em tantos dias, o peso invisível que esmagava o meu peito parecia um pouco mais leve.
- Você está com os olhinhos brilhando hoje, minha anta favorita. - A Dona Cecília comentou com aquele humor ácido e carinhoso dela, sem tirar os olhos dos pontos de lã. - Dormiu melhor?
- Dormi sim, D. Cecília. - Eu respondi com um sorriso genuinamente feliz.
- O meu bisnetinho se comportou então. - Ela parou o tricô e pousou a mão carinhosamente sobre a minha barriga, num afago que aquecia a minha alma. - Mas não é só isso, não é, Loreninha? A ligação que você recebeu ontem, da sua menina...
Eu me afastei muito pouco da D. Cecília para atender a ligação e quando voltei, com o rosto molhado de lágrimas, ela abriu os braços e me consolou de um jeito que só uma avó amorosa consegue. Eu acabei contando a ela sobre a doce garotinha que eu cuidava e que eu amava como se fosse minha. Elça me prometeu que não contaria a ninguém e eu confiava na D. Cecília.
- Ouvir a voz da minha menina me chamando de Lolô e dizendo que ia ser forte por mim, foi como um sopro de vida que eu recebi. Mas eu estou muito preocupada com ela também. D. Cecília, a senhora acha que eu deveria ligar para a avó dela e contar sobre o que está acontecendo? Sobre as ameaças que aquela mulher está fazendo?
- Talvez. Mas eu acho que essa avó já deve saber. Você disse que a menina é muito próxima dela. - Ela me tranquilizou.
- É, tem razão. Mas eu queria tanto poder proteger a minha menina. Saber do sofrimento dela me deixa arrasada.
A governanta da casa apareceu afobada no solário, interrompendo a nossa conversa.
- Lorena, o entregador acabou de chamar no interfone. - Ela avisou de forma gentil, mas um pouco agitada. - Acho que é a caixa de novelos de lãs egípcias que a D. Débora encomendou para o enxoval do bebê. Você pode ir buscar no portão principal? É que eu estou recebendo o pessoal da manutenção do ar condicionado e eles me deixam louca.
- Claro, não se preocupe, eu vou. - Eu me levantei da cadeira de imediato, ajeitando o uniforme, peguei as chaves com a governanta e fui em direção ao portão, caminhando pelo pátio de pedras com cuidado. O meu coração batia calmo, focado na alegria de escolher as cores para os novos casaquinhos do meu filho. Enfiei a chave na fechadura, abri o portão de pedestres e dei um passo para a calçada. Mas o entregador não estava lá.
O meu braço foi puxado de repente e eu fui encurralada no muro, fora da visão da casa. O ar sumiu dos meus pulmões no mesmo milésimo de segundo e eu arregalei os olhos.
Uma silhueta masculina cortou o reflexo do sol. O cabelo milimetricamente penteado para trás, as roupas de marca agora sutilmente desgastadas e o mesmo par de olhos castanhos e dissimulados que haviam estraçalhado a minha vida há quase um ano.

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