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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 272

"Érick"

Eu só percebi que a noite havia virado dia quando os primeiros raios de sol da terça feira começaram a entrar pelas cortinas entreabertas. Eu passei a noite torturado por aquele beijo falso e com o insistente pensamento de que as provas da Adelaide também pudessem ser falsas e, se fosse assim, eu tinha cometido os maiores erros da minha vida baseado em uma mentira.

Eu não havia pregado os olhos. Passei a madrugada inteira trancado naquele escritório escuro, afogado na ressaca moral e no nojo avassalador que eu sentia de mim mesmo por ter me deixado enganar por uma cópia barata. Não ajudou em nada também a discussão violenta aos gritos com a Victória no hall quando cheguei e o pânico no olhar da Alice entre a balaustrada. E tudo isso estava esmagando o meu peito de forma dolorosa.

Eu estava quebrado por dentro. Sentado na minha cadeira, com o terno amassado e o cabelo desgrenhado, eu encarei o tampo brilhando da minha mesa. A sósia barata e vulgar da Scarlat na internet havia me destruído, arrancado de mim todas as certezas que sustentavam a minha arrogância. Eu não podia mais negar, o meu corpo sentia falta dela, eu era um escravo daquela pele e daquele toque indescritível que parecia fundir com a minha pele. Eu era tão dela que havia rejeitado a farsa de forma imediata, eu reconheci no mesmo instante que não era a minha Lorena.

A Scarlat da internet era uma mentira. E aquela constatação disparou um fio de lucidez assustador nas minhas veias. Se a Scarlat da internet era uma cópia... de quem eram as fotos que a Adelaide usou para destruir a minha confiança na minha fada? Será que aquilo tudo que a Adelaide jogou na minha cara era verdade?

O pânico e a dúvida fritaram a minha mente e, por fim, eu já não sabia o que pensar. Eu peguei as chaves e estiquei a mão levemente trêmula, abri a última gaveta da mesa e puxei o envelope que eu mantinha ali como se fosse a evidência física de um espinho na minha alma.

Junto com as provas que devastaram a minha vida, estavam as duas calcinhas de renda da Scarlat que eu guardava como lembranças da minha própria perdição, as minhas relíquias de pecado e dor. A primeira, aquela peça preta e atrevida que ela havia enfiado com deboche no bolso do meu paletó na penumbra do Trono; e a segunda, a renda vermelha que eu havia tomado dela após o nosso último e devastador encontro no camarote privado. Aquela mulher tinha o poder de me levar ao céu e ao inferno e eu não conseguia mais fingir que podia viver sem isso. Eu não podia! Mas eu não conseguia perdoar a traição, eu não conseguia aceitar que ela se entregasse a outros homens como se entregou a mim por dinheiro.

Eu olhei as rendas, preta e vermelha, deslizei levemente os meus dedos por ela e levei o tecido perto do rosto por uma necessidade doentia que eu sentia de tê-la, de sentir o seu cheiro, o seu corpo no meu. O cheiro dela ainda estava no tecido... doce, amargo, metálico... uma mistura de tudo o que ela cheirava e parecia, a fada, a capetinha, a mulher que eu... amava!

- Ah, Lorena... onde você está? - Eu murmurei, sentindo a garganta apertar e um soluço abafado escapar pelos meus lábios.

A saudade me atingiu de forma tão brutal que o ar sumiu dos meus pulmões. Eu apertei as peças de renda contra o peito, os nós dos dedos brancos, engolindo mais um soluço de puro arrependimento que rasgou a minha carcaça de arrogância e indiferença. Eu a amava. Santa ou pecadora, no Trono ou na minha cama, a Lorena era a única dona do meu coração e eu havia sido um idiota cego. Eu estava tão furioso, mas eu deveria ter ouvido... eu deveria ter investigado eu mesmo. O Julian tinha toda razão. E ele também tinha razão sobre a Victória. Eu cometi um erro monumental ao me envolver com a Victória Lemos e outro maior ainda ao me casar com ela. Ela nublou ainda mais os meus pensamentos já tão confundidos pela Adelaide.

Capítulo 272: As relíquias do pecador 1

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