"Lorena"
A Alice passou o dia todo escondida no quarto, numa tristeza de apertar o coração. Ela estava ainda mais triste que no dia anterior e eu sentia que estava prestes a despedaçar o coraçãozinho dela um pouco mais. Eu não gostava disso, mas eu sabia que teria que dar um bom motivo para ela me contar o que estava escondendo. Eu entrei no quarto devagar. Ela estava deitada, agarrada ao ursinho e fungando. Eu me deitei junto dela e a abracei com carinho, dando um beijo na sua cabecinha.
- O que foi, minha menina? Por que você está chorando? - Eu perguntei com cuidado.
- O papai não vai voltar, Lolô. - Ela fungou e passou a mão no nariz.
- Será, Alice? Olha para mim. - Eu falei e ela se virou na cama para ficar de frente para mim. - O seu papai te contou um segredo, não contou? - Ela fiz que sim, enquanto eu limpava as lágrimas dos seus olhinhos. - Me diz que segredo é esse, Alice. Me conta pra gente procurar o seu papai juntas.
- É um segredo, Lolô. Eu prometi. - Ela respondeu sem me encarar. Ela morreria com aquele segredo.
- Querida, às vezes os segredos precisam ser revelados. - Eu insisti. - Você sabe como falar com o Érick, não sabe? - Eu perguntei diretamente, mas ela ficou bem quietinha, como se não tivesse ouvido. - Alice, olha pra mim. - Eu falei com a voz mais firme e ela levantou os olhos. - Me conta a verdade. Se você não contar eu vou ter que ir embora com o bebê. - Eu falei isso com o coração apertado. Eu não queria assustá-la. Mas eu não estava vendo outra saída.
- Não! - Ela soluçou e se sentou assustada, com o rostinho contorcido, e começou a chorar de novo. - Por que? Você não pode me abandonar também. Você me prometeu que vai ser a minha mamãe pra sempre! - Ela cobrou e quebrou o meu coração.
- E você prometeu contar a verdade. Lembra? No dia que o bebê nasceu? - Eu a lembrei, com a voz embargada e a encarando fixamente.
- Mas foi naquele dia... - Ela insistiu.
- Mas você não contou toda a verdade. Você escondeu que sabe como encontrar o seu pai.
- Mas... você pediu a verdade... não era só para o segredo da vovó? - Ela sempre estava encontrando caminhos.
- Não, era para tudo! Você disse que contaria, Alice. E se você não contar, eu vou embora, como eu disse que faria.
- Se eu contar, você promete que nunca mais vai falar que vai embora com o bebê? - A voz dela estava carregada de tristeza e súplica.
- Prometo! - Eu levantei a mão solenemente.
- E promete que vai me ajudar a convencer o papai a voltar e não vai deixar ele ficar bravo comigo por ter te contado? - Ela pediu e eu sinceramente torcia para que fosse exatamente assim.
- Prometo! Porque eu quero muito que o seu papai volte. E o bebê também.
- Tá bom! - Ela correu até o pote de laços de cabelo e o virou, derramando todo o conteúdo no chão. Então, em meio a todos aqueles laços coloridos, ela se abaixou e pegou um cartão, o trazendo até mim. - Aqui. O papai disse que se acontecesse alguma emergência era para discar todos esses números no telefone e deixar um recado para ele. Eu fiz isso, Lolô, eu disquei todos esses números e deixei um recado para ele, mas ele não me ligou de volta.
O meu coração se quebrou no peito no mesmo milésimo de segundo. como o Érick não retornou para ela? Eu senti um turbilhão de coisas olhando a letra do Érick naquele cartão. O tempo todo estava dentro do pote de laços de cabelo. Meus pensamentos pareciam disparados na velocidade da luz. Sem perder um único milésimo de segundo, eu peguei o meu celular e digitei o código internacional. A Alice se sentou ao meu lado e eu a abracei, enquanto a ligação completava. No primeiro toque, alguém atendeu.

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