"Érick"
Eu escolhi vir para a Suíça porque sabia que nesta época do ano o clima estaria de acordo com o meu humor, carregado e frio. Mas também porque aqui havia vários pequenos vilarejos onde eu poderia me esconder para curar a minha ferida. Mas a medida que o tempo ia passando e as semanas se transformando em meses, eu comecei a duvidar que fosse possível que algum dia aquela dor desaparecesse. Nem o frio que cortava a minha pele havia congelado aquele sentimento de perda irreparável ou arrancado de mim aquele amor que parecia ter sido gravado a ferro quente.
Três meses haviam se passado desde que eu fugi, amargando a pior e mais destruidora imagem que os meus olhos já haviam visto: a Lorena, linda e radiante no ápice da sua gestação, sorrindo e aceitando o toque de outro homem. E junto com a dor eu senti inveja daquele homem, raiva, desespero, culpa, arrependimento.
Não houve um único dia que eu não tenha desejado que a realidade fosse outra, que fosse o meu filho no ventre dela, que ela estivesse comigo. Mas o idiota que a mandou embora fui eu e isso era o suficiente para que eu me punisse com o meu exílio e me autoflagelasse com a lembrança da imagem dela grávida de outro, a imagem que se repetia em um looping doentio na minha mente a cada madrugada em claro. Eu a havia perdido para sempre por causa do meu orgulho estúpido. Eu a havia jogado nos braços de outro homem enquanto me deixava ser enganado pela Victória. Victória... como será que estava aquela situação? O divórcio e a tal gravidez? Nada mais me importava, eu só queria fugir e esquecer.
Quando eu planejei a minha fuga, sem pensar muito, eu estava com tanta pressa que acabei reservando um hotel em que eu já havia me hospedado em outras ocasiões. Eu sabia que eles tinham um serviço de tradutor, por isso dei o número para a Alice, se ela quisesse falar comigo não teria dificuldade. Eu também avisei na recepção que uma criança poderia ligar e deixar recado. Mas depois de alguns dias eu deixei o hotel, mantendo o quarto alugado como uma base, onde a minha filha poderia deixar algum recado se precisasse de mim. Mas ela nunca ligou. Talvez nem sentisse a minha falta.
Depois que eu saí do hotel eu fui direto para Torgon, um vilarejo que não ficava muito longe. Aluguei um chalé, onde eu me isolei, sem TV, sem internet, sem contato humano, apenas a minha consciencia e eu. A cada três dias eu ia até Genebra comprava suprimentos básicos e passava pelo hotel para saber se havia algum recado da minha filha, mas ela estava seguindo a vidinha dela sem precisar do pai. Mesmo assim, eu mantinha o quarto alugado e passava por lá a cada três dias. E foi o que fiz naquele início de tarde, retornei ao saguão do hotel em Genebra apenas para saber se tinha algum recado, mas já esperando ouvir um não.
Eu me aproximei do balcão de mármore da recepção. Eu já havia me tornado conhecido ali e as funcionárias respondiam com pesar quando eu perguntava por recados. Mas esta tarde, o clima estava diferente, elas me receberam com sorrisos entusiasmados. Uma delas se aproximou e me informou que a minha filha havia deixado um recado na noite anterior e que foi o recado mais interessante que ela já tinha anotado. Ela me entregou o envelope branco com a insígnia do hotel impressa em dourado.
Eu senti o meu coração disparar de ansiedade. Abri o envelope ali mesmo na recepção e os meus olhos focaram nas palavras escritas à mão pela recepcionista. Eu li e reli e entendi porque ela havia achado o recado tão interessante. Para qualquer um, aquilo parecia uma fábula encantada, mas eu sabia que era só o jeito da Alice de explicar o que ela via, mas ainda não entendia muito bem. Eu nem precisava perguntar à recepcionista se ela tinha certeza do que estava escrito, porque aquele recado era bem a cara da Alice.
No entanto, o recado interessante da minha filha fez o mundo parar e todas as minhas certezas evaporaram. Mas o que a Alice quis dizer com aquela mensagem? E como sempre eu nao entendi inteiramente o que ela queria dizer, eu só entendi que eu precisava voltar rápido e foi o que eu fiz.Eu eu fiz tudo tão depressa que eu nem liguei de volta para a minha filha, eu nem pensei nessa possibilidade que só me ocorreu quando o avião já tinha decolado. Tudo o que eu fiz foi fechar a conta do hotel e voltar depressa para o vilarejo para pegar as minhas coisas e entregar o chalé.
E aquele vôo transatlântico de quatorze horas foi uma tortura asfixiante. Eu não consegui dormir, e a minha mente agora girava em torno das palavras da Alice: "volta logo, antes que a gente perca o nosso banquete no castelo". O que ela queria dizer? Eu sabia que ela estava se referindo a Lorena, mas a Lorena estava perdida para mim. Mas e se não estivesse? E se ela tivesse deixado o outro? Ah, eu ficaria de joelhos por ela. Cuidaria do filho dela como se fosse meu. Passaria a vida me desculpando. E foi entao que eu me lembrei que havia proibido a Lorena de ver a Alice, então talvez o recado da minha filha nada tivesse a ver com a minha fada. Ou tinha? Eu estava enlouquecendo naquele avião que mão chegava nunca. Eu deveria ter ligado antes de sair correndo!


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