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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 320

"Érick"

Eu mal consegui pregar os olhos. Passei o resto daquela madrugada rolando na cama e antes do dia amanhecer eu já estava raspando a barba espessa que eu negligenciei por três meses e encarando o espelho. As olheiras profundas e arroxeadas continuavam ali, como se me lembrassem da felicidade que eu joguei fora, mas pelo menos minha postura precisava ser restaurada para estar diante da minha filha.

Assim que os primeiros raios de sol começaram a atravessar a janela, eu saí do quarto, vestindo um dos ternos que eu mantinha ali na casa da minha mãe, e desci as escadas. Antes mesmo de entrar na cozinha o cheiro de café recém passado invadiu o meu nariz, trazendo a sensação de estar de volta em casa. Aquilo foi revigorante!

Na cozinha eu fui recepcionado por três pares de olhos surpresos: a cozinheira e a governanta da minha mãe, o Alberto e a Maria. Eu cumprimentei um por um e me sentei diante da bancada.

- Alberto, venha me contar como as coisas estão por aqui. - Eu convidei enquanto a governanta me entregava uma xícara de café.

- É melhor falar com a sua mãe primeiro, senhor. - O Alberto respondeu, deixando claro que ninguém daria nenhuma informação antes de ser autorizado pela D. Heloísa.

- Pelo menos você tirou a barba e tomou um banho. - A minha mãe entrou na cozinha, altiva como só ela conseguia, e parou na minha frente. - Porque dormir, eu tenho certeza que não conseguiu.

- Não, mãe, não consegui. - Eu me levantei e dei um beijo no rosto dela. - E se a senhora não se importa, eu vou acordar a minha filha agora.

Eu marchei a passos largos pelo corredor até o quarto da minha filha e empurrei a porta de madeira de mansinho. A Alice estava encolhida nos lençóis, um ursinho de pelúcia jogado na ponta do colchão. Eu me aproximei com o coração na boca, observei a minha filha por um momento. Eu estava com saudade. Muita saudade. Me sentei na beirada da cama e me curvei sobre ela para depositar um beijo terno em sua bochechinha rosada.

A minha pequena abriu os olhinhos azuis devagar, piscou por dois segundos, esfregou os olhos e, ao processar que era eu quem estava ali, ela deu um pu7lo da cama e jogou os bracinhos ao redor do meu pescoço com a maior força que pôde, desabando em risos e gritos eufóricos.

- Papai! Papai, você voltou! - Ela vibrou aos gritos, esmagando o rosto contra o meu peito. - Você não abandonou a gente! Você voltou para o nosso final feliz!

- Pequena... que saudade de você! Eu nunca vou te abandonar e prometo nunca mais ficar tanto tempo longe. - Eu confessei num sussurro rouco, a minha voz falhando de pura emoção e arrependimento por ter ficado todo esse tempo longe da minha filha. Eu apertei contra o meu peito e respirei fundo.

- É bom mesmo, papai, porque nós ficamos muito triste e estamos morrendo de saudade. - Ela estava com os bracinhos firmes em volta do meu pescoço.

- Alice, me conta a verdade... o que está acontecendo por aqui? O que você quis dizer com aquele recado que deixou para mim?

A minha filha se afastou, abriu um grande sorriso e começou a tagarelar as novidades do seu jeito clássico de conto de fadas, gesticulando com as pequenas mãos, tão empolgada que pareceu esquecer de respirar e me deixando em completo estado de choque e confusão ainda maior.

- Ah, papai, aconteceu tanta mágica na sua ausência! - Ela revelou com os olhinhos brilhando de puro deleite. - Os guardas invadiram o castelo e escorraçaram a bruxa! O feitiço da bruxa acabou e ela perdeu os poderes! E a Fada... ai, papai, a Fada agora veste roupas de rainha e manda em todo mundo igual a vovó Heloísa! Mas o melhor de tudo, papai... - A Alice ficou de pé sobre a cama e esticou o dedinho para o alto, jogando a cabeça para trás, empolgadíssima. - Papai, a mais linda, incrível, maravilha e perfeita mágica ficou pronta e o b... - De repente ela se calou, colocou a mãozinha na boca e deu uma risadinha.

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