"Érick"
O mal tinha parado em frente ao edifício imponente do Grupo Albelini e eu já estava abrindo a porta e pulando do banco de trás num rompante determinado. Eu precisava de respostas e a minha mãe estava usando o momento para me dar uma lição como se eu fosse um garoto! O meu peito subia e descia rápido, a ansiedade me dominando por inteiro. Por mais que eu tentasse, eu não conseguia deduzir nada pelas poucas palavras que todos me disseram.
Eu entrei apressado, cruzei o saguão a passos largos, ignorando os olhares curiosos dos funcionários, e marchei direto para o andar da presidência. Assim que eu me aproximei da recepção, eu dei de cara com a Amália. O olhar dela sobre mim era como um desafio. Ela me encarou com aquele sorrisinho de canto, parecendo completamente imune ao meu mau humor, ou simplesmente confiante demais.
- Sr. Albelini! Que bom que o senhor resolveu aparecer para trabalhar depois dessas férias prolongadas. - Ela falou comigo com o seu habitual desdém que havia ultrapassado os olhares de reprovação.
- Eu posso te demitir. - Eu avisei a ela.
- Até pode. - Ela sorriu amplamente. - Mas não vai. Seria em vão.
- Como é que é? - Eu me aproximei do balcão e o sorriso dela ficou maior ainda.
- Ah, Sr. Albelini, o senhor ficou muito tempo fora. - Ela franziu o nariz e abaixou a voz. - Tem muita coisa para descobrir. Uma delas é que vai querer me demitir, mas não vai poder.
- Que confiança é essa, Amália? - Eu perguntei chocado e ela riu.
- Fique tranquilo, eu sou sua aliada, pode confiar. E a sua mãe está te esperando na sua sala. Vai. Trate de entrar rápido porque ela não gosta de ficar esperando. - Ela me dispensou com um gesto de mão e voltou a mexer nos papéis sobre o balcão.
- Amalucada irritante! - Eu saí resmungando em direção a minha sala. Eu já nem via nada mais, apenas marchei irritado até a minha sala.
- Bem-vindo de volta, Sr. Albelini. - A minha assessora sorriu para mim, pelo menos alguém ainda mantinha respeito.
- Bom dia. Como está tudo por aqui?
- Funcionando perfeitamente. A sua mãe o aguarda. - Quando eu estava prestes a abrir a porta, ela soltou o último comentário. - Da próxima vez seria de bom tom deixar um número para contato de emergência com um adulto.
Eu olhei para ela quew simplesmente ignorou o meu olhar. O que tinha acontecido nessa empresa? Eu abri a porta e entrei de uma vez. A D. Heloísa estava sentada elegantemente na minha cadeira, ostentando uma pose impecável e sorriu ao me ver.
- Mãe, dá para a senhora me tirar desse tratado de silêncio e me contar o que de fato está acontecendo por aqui? Eu já entendi que não devo sumir de novo. - Eu desabafei num sussurro rouco, ríspido e despido de qualquer arrogância. Apoiei as duas mãos na mesa, exausto e vencido. - Eu passei a madrugada em claro e sinto que virei um fantoche indo de um lado para o outro debaixo das suas ordens. A Alice me despejou uma história maluca com bruxa, fada e rainha e a Maria me mandou correr para cá porque o sócio misterioso finalmente se apresentou. Quem é esse homem? O que ele quer aqui? Nem o Alberto me falou nada. A recepcionista disse que eu não posso demiti-la e a até a minha assessora resolveu reprovar o que eu faço. Eu não aguento mais. O que está acontecendo?
A minha mãe ouviu tudo em silêncio, se levantou lentamente, ajeitando o blazer com um sorriso enigmático e imensamente presunçoso.
- Há muita coisa que você precisa saber, Érick. Mas será uma conversa muito longa e ela terá que esperar. - A minha mãe falou com aquela voz mansa, mas que não deixava espaço para discussão. - O Conselho de Administração já está reunido para a apresentação formal do novo sócio. Vamos, estamos em cima da hora.
Eu tive vontade de chorar como uma criança que perde o doce. Mas não tinha conversa com a D. Heloísa, a ordem estava dada. Eu respirei fundo e caminhei ao lado da minha mãe pelo corredor silencioso da holding.

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