"Érick"
Eu olhei em volta da sala da casa da minha mãe, percebendo que a vida tinha mudado. Antes estaríamos ali apenas ela, a Alice e eu, conversas baixas e muitas vezes silêncio. Agora parecia outro lugar. além da agitação própria que ter um bebê em casa causa, mais pessoas se juntaram a família.
A risada alta da Marcelina enquanto o Julian falava alguma bobagem no seu ouvido, me fez rir enquanto a conversa fluida e cheia de sorrisos entre o Andrey e a Amália chamou a minha atenção. E aí, do outro lado da sala estava a minha mãe, o Balthazar e a Dalva no que parecia ser uma conversa muito interessante, enquanto a Lorena, debaixo do meu braço, ouvia as histórias da Alice que já estava bocejando de sono. E do meu outro lado, dormindo no moisés, estava o Marco, meu filho, uma pessoa tão pequena que já ocupava um espaço tão grande na minha vida. Eu estava em êxtase!
Eu passei o dia flutuando entre uma conversa e outra, mas eu não me desgrudei da Lorena e dos meus filhos nem um minuto. Eu tinha uma saudade grande demais para matar.
- Acho que está na hora de ir. A Alice já está prontinha para dormir. Você vai deixá-la aqui essa noite? - A Lorena perguntou baixo.
- Com certeza! Amanhã ela e o Marco vão para casa. - Eu respondi, mas ela me olhou franzindo a testa. - O quê? Eles vão ficar muito bem uma noite com as avós e elas estão animadas com isso eu já verifiquei.
- Do que você está falando, Albelini? - A Lorena se virou para me encarar.
- Lorena, eu amo os meus filhos e quero passar todo o tempo possível com eles. - Eu encarei aqueles olhos castanhos. - Mas eu também te amo e quero passar um tempo com você. Eu estou morrendo de saudade, Lô!
- Está bem, então vamos levar nossos filhos para a cama. - Ela deu um sorriso tímido.
Enquanto eu colocava o Marco no berço, a Lorena levou a Alice para vestir o pijama e quando eu entrei no quarto dela, elas estavam rindo e a Alice parecia ter despertado.
- Papai, você vai contar uma história para mim hoje. - A Alice decretou com uma animação preocupante para um pai que queria que ela dormisse logo.
- Está bem. Mas vai ser só uma história, pequena como você. - Eu me aproximei e me ajoelhei ao lado da cama, enquanto a Lorena puxava o edredom e cobria a Alice. - Era uma vez, uma princesinha muito esperta. Ela vivia no castelo com o seu pai, o rei, que não era assim muito esperto. O castelo estava enfeitiçado e triste, sem rainha há muito tempo e o rei, como foi enfeitiçado, tinha virado o bicho-papão.
- Ah, é você! - A Alice apontou o dedinho para mim. - E a princesa sou eu.
- Isso aí! - Eu respondi e continuei. - Um dia, chegou no castelo uma moça muito bonita, com grandes olhos castanhos, ela foi mandada para cuidar da princesa. Mas aquela moça era especial, ela era uma fada e quebrou o feitiço do castelo. O rei já não era mais o bicho-papão e o castelo se encheu de alegria.
- É a Lolô! - A Alice disse animada. - Estou gostando dessa história.
- Ah, você vai gostar. - Eu comentei. - Mas o que o rei não sabia é que tinha uma bruxa no castelo e ela fez um feitiço poderoso contra a fada, culpando a fada por um crime que ela não tinha cometido. Aí o rei...
- Que não é tão esperto assim. - A Lorena completou rindo.
- É, ele não é, mas ele tem muita sorte. - Eu respondi. - O rei ficou furioso, expulsou a fada do castelo e proibiu sua filha, a princesa, de ver a fada. E aí o castelo ficou enfeitiçado de novo. A bruxa lançou um feitiço poderoso no rei e o enganou para que ele casasse com a outra bruxa e elas pudessem dominar o castelo.

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