Carolina sentiu que havia algo a mais nas palavras dele.
Henrique perguntou, com cuidado:
— Por que ela te bateu?
Carolina permaneceu em silêncio.
Por respeito, Henrique não insistiu.
Afinal, eles não tinham qualquer tipo de relação além da convivência. Aquilo dizia respeito à vida dela. Insistir seria ultrapassar limites, seria falta de educação.
Henrique se levantou e foi até a cozinha.
Pouco depois, voltou com uma bolsa de gelo e se sentou ao lado de Carolina.
Com delicadeza, segurou o braço dela e encostou o gelo sobre os hematomas, controlando a força, como se temesse machucá-la ainda mais.
O tempo já estava frio, e o contato gelado fez o corpo de Carolina estremecer involuntariamente.
— Aguenta um pouco. — A voz dele soava especialmente suave.
Ele não deixava o gelo por muito tempo. Aplicava por alguns segundos, afastava, esperava um pouco e então repetia o processo, com uma paciência quase excessiva.
A dor no estômago de Carolina foi diminuindo aos poucos. O braço, anestesiado pelo frio, ficou dormente.
Ela se recostou no sofá. As pálpebras pesadas, à beira do sono.
Henrique passou por cada mancha roxa com atenção, sem deixar nenhuma de fora. Enquanto cuidava dela, orientou:
— Nos próximos dois dias, faz compressa fria. De três em três, quatro em quatro horas. Depois de quarenta e oito horas, troca por compressa quente. Pode ser com ovo cozido.
Carolina piscou, surpresa.
— Dá todo esse trabalho assim?
— Quando eu era pequeno, aprendi a andar de bicicleta e caí feio. Bati a cabeça, ficou toda inchada. — Ele sorriu de leve. — Minha mãe fazia exatamente isso pra tirar o roxo e aliviar a dor. Sarava rápido.
O coração de Carolina afundou numa tristeza silenciosa.
Uma tristeza fria, densa. Daquelas que não doem de imediato, mas permanecem.
Quando era criança, Carolina apanhava com frequência da própria mãe.
As marcas de chicote, os roxos deixados pelos beliscões. Tudo cicatrizava sozinho, com o tempo. Nunca houve quem cuidasse dela.
Ela costumava acreditar que não existiam pais que não amassem as próprias filhas.
Mas agora sabia, com clareza absoluta, que sua mãe não a amava.
Desde pequena, a mãe sempre a enxergara como uma rival amorosa.
Quando Carolina fazia carinho no pai, a mãe a chamava de vulgar.
Quando beijava o rosto dele, era acusada de não ter vergonha.
Quando dormia abraçada ao pai, a mãe gritava que ela estava tentando seduzir o próprio pai.
Isso a levou, desde muito cedo, a se consumir por dentro, a desenvolver uma autoestima frágil, doentia.
Aprendeu a manter distância do pai de propósito. Fria, educada, contida.
Só assim a mãe ficava satisfeita.
Ela ainda carregava um conjunto inteiro de ideias tortas, ditas com a maior naturalidade:
— Mulher sem estudo é mulher virtuosa.
Em quatro anos juntos, Carolina nunca havia mencionado a família.
Mesmo quando ele a pediu em casamento e quis ir a Porto Velho para conhecer os pais dela, foi recusado sem explicações.
— Quando eu era criança, era frequente. Depois de adulta, quase não acontece… Mas não é que tenha parado de vez. — Respondeu Carolina.
Ela estava recostada no sofá, o rosto voltado para o céu noturno além da varanda. Os olhos ainda úmidos refletiam uma melancolia densa, como se o coração estivesse permanentemente encharcado de sombras.
Henrique continuou a compressa por cerca de vinte minutos. Então se afastou um pouco.
— Já deve estar bom por agora.
— Obrigada.
Carolina se sentou direita, e a camisa branca escorregou lentamente pelo corpo.
Henrique se virou num reflexo imediato, ficando de costas para ela. A postura ficou rígida, excessivamente reta. As mãos inquietas apertavam a bolsa de gelo enquanto ele a massageava sem perceber.
A luz quente e suave deixava a sala abafada. No ar, havia um leve calor difuso, quase palpável, que se espalhava silenciosamente pelo ambiente.
Atrás dele, Carolina vestiu a camisa com cuidado, fechando os botões um a um, devagar.
Henrique pigarreou. A voz rouca saiu baixa:
— Antes de dormir… Eu posso colocar gelo de novo pra você.
— Não precisa incomodar. Eu faço sozinha. — Respondeu Carolina.
Depois de agradecer, pegou a pasta de trabalho e o casaco, caminhando em direção ao quarto.
Henrique se virou.
Ficou observando suas costas se afastarem. O olhar cada vez mais profundo, pesado de algo que ele mesmo parecia não saber nomear.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amar Foi Perder o Controle
Pq está dando erro na leitura do livro...
É sério . Está dando, pedindo pra acessar mais tarde, porém está cobrando dinheiro vulgo moedas, é errado isso...
Pq está cobrando moedas verso dinheiro e não estou conseguindo acessar o livro, pq dar um jeito de dar o acesso às moedas cobradas...
É possível obter o e-book completo?...