Libby
Eu terminei a ligação com Eron, o coração apertado como nunca. A voz dele do outro lado era fraca, rouca de dor, mas ele tentava ser forte, "Tô bem, amor. Cuida do Enoch por mim. Diga pra ele que o irmão mais velho tá esperando ele pra um desafio quando isso acabar." Eu ri chorando, prometi que sim, mas por dentro estava destruída. Meu marido queimado em Denver, meu cunhado caçula lutando pela vida aqui em Sidney. E eu no meio, tentando segurar tudo.
Guardei o celular no bolso e voltei pra sala de espera da UTI. Fazia horas que eu tava ali, cheguei, vi Enoch na maca pós-cirurgia, pálido, tubos por todo lado, feridas estranhas com traços prateados-dourados que eu reconhecia como resíduo da magia do Riuk. Laura tava ao lado, destruída, chorando baixinho enquanto eu ligava pro Riuk pra passar as atualizações.
Agora, voltando pra sala, encontrei Laura ainda encolhida na cadeira plástica, olhos vermelhos, mãos torcendo um lenço. Ela levantou o olhar quando me viu, e o choro veio de novo, mais baixo, mas ainda desesperado.
"Libby... alguma notícia do Enoch? Por que está demorando tanto?"
Eu sentei ao lado dela, abraçando pelos ombros.
"Ele vai ficar bem, querida. Ele é forte. Todos são. Os Peytons tem uma péssima mania de atrair problemas. Eron também tá lá todo enfaixado... mas tá mandando forças pro Enoch."
Ela fungou, enxugando o rosto.
"Eron? Ele tá bem? O que aconteceu com ele?"
Eu hesitei, mas contei uma versão suave. "Foi ferido na mesma... hum, ele mexeu com fogo. Está com queimaduras de segundo e terceiro grau, mas tá se recuperando em Denver. Ele é teimoso, vai ficar bem."
Laura assentiu, mas os olhos dela ainda perdidos, cheios de perguntas.
"Libby... eu não consigo parar de pensar. Parecia algo mágico. Do nada, aquele vento forte, quente e frio ao mesmo tempo, como uma explosão distante. Nos arremessou como se fôssemos nada. Enoch... ele ia me beijar, e aí tudo acabou. Como algo assim acontece? Não foi normal. Foi como se o ar tivesse vida própria."
Meu estômago gelou. Mágico. Ela tava tão perto da verdade que doía. O segredo da nossa família, lobos, magia, o mundo oculto, nunca foi pra humanos como ela. Mas ali, com Enoch lutando pela vida, eu não podia revelar ainda.
"Calma, Laura. Vai ficar tudo bem. Tem coisas na vida que não têm explicação fácil. Às vezes o mundo só... acontece de formas que a gente não entende. Mas Enoch é forte. Ele vai lutar. E você tá aqui com ele. Isso já ajuda muito."
Ela me olhou, procurando mais, mas assentiu devagar.
"Eu só... quero que ele acorde. Que me diga que tá bem."
Eu apertei a mão dela. "Ele vai. Confia."
Ficamos em silêncio um tempo, eu segurando ela enquanto chorava baixo. Meu celular vibrava no bolso, mensagens da família, notícias de Ragnar sobre Eron, Cam preocupada com Enoch. Mas eu focava nela. Laura era humana, inocente nisso tudo, mas já tava envolvida demais. Apaixonada pelo meu cunhado. Eu via nos olhos dela.
Um médico apareceu na porta, jaleco branco, expressão séria.
"Senhora Libby? A solicitação de transferência do paciente Enoch Peyton foi aceita. Podemos movê-lo agora. O hospital particular da família tá pronto pra receber."
Laura franziu a testa, confusa, levantando rápido.
"Transferência? Como assim? Ele tá muito machucado, não pode ser movido! Os médicos aqui disseram que é arriscado... ele acabou de sair da cirurgia!"
Eu apertei o braço dela, para acalmá-la.
"Vai ficar tudo bem, Laura. O hospital da família tem equipamentos especiais, médicos que conhecem o histórico dele de cor. É o melhor pra ele agora. Confia em mim, não faria nada que colocasse ele em risco maior."
Mas eu via que ela não acreditava completamente. Os olhos dela, inteligentes, curiosos, percebiam as nuances. Os médicos falando baixo sobre "regeneração lupina", o ar de segredo no avião.
Quando chegamos no hospital particular dos lobos em um prédio discreto nas colinas, guardas altos demais, em um lugar mais afastado, comecei a ficar mais tranquila.
A transferência foi suave. Enoch no quarto especial, máquinas lupinas discretas monitorando o coração dele, ervas no ar acelerando a cura.
Mandei no grupo: "Chegamos. Enoch já está no quarto. Ele está estável. Laura permanece aqui, aguardando ele acordar."
Guardei o celular e olhei pra Laura. Ela estava parada no corredor, olhos fixos na porta do quarto, mas algo mudou no rosto dela. Ela via as diferenças agora, os seguranças com olhos que brilhavam dourado na luz baixa, os médicos murmurando sobre "sangue alfa", o ar de poder no lugar inteiro.
Ela virou pra mim, como se tivesse juntado as peças.
"Libby... quão poderosos vocês são?"
Meu coração parou.
Antes que eu pudesse responder, a porta do quarto se abriu. O médico chefe saiu, sorrindo aliviado, voz baixa e clara.
"O filho do Supremo está seguro aqui conosco."
Laura congelou. Olhou pra mim. Olhou pro médico.
"Filho do... Supremo?"

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