Enoch
Era estranho como, pela primeira vez em meses, eu me sentia inteiro.
A mesa estava cheia. Cheiros, risadas, vozes se cruzando, pratos passando de mão em mão. Minha mãe circulava como se aquele fosse o dia mais importante da vida dela. Meu pai observava tudo com aquele ar satisfeito de quem vê a alcateia em equilíbrio. Eron falava alto demais, Libby ria dele, Riuk discutia alguma coisa séria que virava piada em dois segundos. Rubi estava radiante, a mão pousada na barriga, os olhos brilhando como se carregasse o próprio sol ali dentro.
E Laura…
Laura estava sentada ao meu lado.
Ela ainda parecia um pouco deslocada, mas sorria. Segurava os talheres com cuidado, observava mais do que falava, absorvendo tudo. Meu lobo ronronava baixo, orgulhoso. Ela estava ali. Comigo. Grávida do nosso filhote. Viva. Inteira.
Nada mais parecia capaz de me incomodar.
Quase nada.
Foi quando eu senti.
Não precisei olhar de imediato. O lobo sentiu primeiro. Um desconforto rasteiro, insistente, como um faro que não encontra descanso. Quando virei o rosto, vi Pryia do outro lado da sala.
Ela não falava. Não ria. Não comia.
Só olhava.
E não era para mim.
Era para Laura.
O olhar dela não era agressivo. Nem descaradamente hostil. Era pior. Era avaliador. Calculista. Como quem mede algo que não entende, mas não aceita.
Meu maxilar travou.
Respirei fundo. Não queria estragar aquele momento. Não ali. Não hoje. Mas o lobo começou a se mexer sob a pele, irritado, marcando presença.
"Já volto." falei para Laura.
Levantei com calma e caminhei até ela.
“Está tudo bem?” perguntei, num tom neutro demais para quem me conhecia de verdade.
Ela piscou, claramente surpresa por eu ter me aproximado.
“Claro”, respondeu rápido demais. “Por que não estaria?”
Inclinei levemente a cabeça.
“Você não para de olhar para a minha companheira.” Minha voz saiu baixa, firme. “Parece que algo te incomoda. Posso saber o que é?”
Ela percebeu, então, que Laura observava de longe. Mas Laura não retribuiu o olhar. Não confrontou. Apenas continuou ali, quieta. E isso fez algo dentro de mim ranger.
Pryia engoliu seco.
“Não… não é isso.” Ela desviou o olhar por um segundo. “Eu só fiquei surpresa. Não imaginava que sua companheira fosse… humana.”
A palavra veio carregada de peso.
“E agora um filhote”, ela completou. “Foi tudo muito inesperado.”
Assenti devagar.
“É.” Sorri de leve. Um sorriso que não tinha nada de frágil.
“Mas a Deusa tem planos que nós não entendemos. E os que ela trouxe para mim são perfeitos.”
Olhei na direção de Laura sem conseguir evitar.
“Ela é exatamente o que eu procurei a vida inteira.”

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Apaixonada pelo Alfa Errado