Rubi
“Como assim… por outros olhos?”
A voz de Riuk rompe o silêncio confortável que tinha se instalado entre nós.
Pisco, tentando organizar o que eu mesma não entendo.
“Não sei explicar.” Apoio o lápis digital na mesa. “É só uma sensação esquisita. Como se… tivesse outra percepção junto da minha. Não é ruim. Só… diferente.”
Ele me observa com atenção demais.
O tipo de atenção que arrepia a nuca.
Então sorri, aquele sorriso leve e quente que ele usa quando quer me acalmar.
“Isso deve ser a adrenalina ainda correndo pelo seu corpo,” diz, encostando o ombro no meu. “Mas, se quiser, eu posso marcar um médico.”
“Nada disso.” Balanço a cabeça. “Eu tô bem. Mais uns dias e voltarei a ser a velha e sem graça sem lobo Reynolds.”
Ele me encara sério, e toca meu queixo.
"Não gosto que você se menospreze assim."
"Não é isso, é só que é um saco ser uma humana entre uma família de lobos. Sou 'delicada demais'." bufo e ele acaricia meu rosto.
"Essa delicadeza é seu encanto, pequena. Deveria ter cuidado com isso." ele se afasta, e eu respiro com dificuldade.
Volto para o projeto no notebook.
E é incrível como agora eu vejo o toque dele ali também.
Nos mínimos detalhes.
Na precisão dos cálculos que ele sugeriu.
Na curvatura do desenho que só existe porque ele me fez enxergar por outro ângulo.
O projeto não é mais só meu.
É nosso.
E isso me aquece… e me apavora, por que se eu continuar, estaremos sempre ligados, não só no projeto, como na execução e também na entrega e se eu não quero mais o atrair para o perigo que é estar ao meu lado, como vou fazer isso, ficando o tempo todo assim com ele?
O celular dele toca.
Ele olha a tela, franze o cenho e… recusa a ligação.
Mais tarde, toca de novo.
Outra ligação.
Outra recusa.
“Você… não vai atender?” pergunto, tentando soar neutra.
“Hoje vou trabalhar de casa. Já avisei a equipe por e-mail, mas aparentemente, eles não estão conseguindo se virar sem mim.”
"Então atenda e resolva, ué. Não precisa se preocupar comigo, Riuk, eu estou bem."
"Prometo que vou resolver isso, e volto minha atenção toda pra você."
Minha respiração falha um pouco.
É tão bom tê-lo aqui.
Bom demais.
Perigoso demais.
Desvio o olhar e me levanto.
“Para de falar isso." ele sorri de lado. "Vou preparar algo para a gente comer.”
Ainda estou mancando um pouco, mas quando apoio a mão no balcão percebo que os cortes… estão menores. Fechando mais rápido do que deveriam.
Algo dentro de mim… suspira aliviado.
Que porra é essa?
Abro a dispensa e encontro frutas.
Pães frescos.
Aveia.
Coisas que não estavam ali na noite anterior.
E a geladeira?
Leite, suco, iogurte.
“Que horas ele comprou tudo isso…?”
Preparo a mesa com o que consigo segurar: frutas fatiadas, pão, geleia.
Coloco o café para passar.
Estou tão concentrada que nem percebo a aproximação dele até ouvir sua voz:
“Você devia ter dito que estava com fome.”
Ele cruza os braços na porta da cozinha, apoiando o ombro na parede. Descalço. Sem camisa. Corpo inteiro relaxado… mas com um olhar que não relaxa nunca. “Eu preparava algo.”
Sorrio de canto.
“Você já fez demais.”
Sem perceber, eu me inclino um pouco na direção dele.
É mínimo.
Natural.
Instintivo.
Ele não recua.
Pelo contrário.
Riuk ergue a mão, devagar, como se me tocasse fosse um risco calculado e afasta uma mecha de cabelo do meu rosto. Seus dedos roçam minha pele. Meu corpo inteiro acende.
“Isso vai ser mais difícil do que eu imaginava,” ele sussurra.
Eu quase pergunto o quê.
Quase.
Mas então o celular dele toca.
Quebrando tudo.
Ele fecha os olhos um segundo, frustrado.
Se afasta para atender.
E é aí que acontece.
Do meu peito…
surge um som baixo, rouco, gutural.
Um rosnado.
Eu rosnei.
Tapo a boca, horrorizada.
O coração dispara.
A garganta arde como se estivesse dividida entre duas coisas que eu não entendo.
“Rubi?” Riuk se vira imediatamente, atento, alerta. “O que foi isso?”
Eu apenas balanço a cabeça, incapaz de responder.
Mas uma certeza me atravessa, quente e perigosa:
Algo dentro de mim está acordando.
E está acordando por causa dele.

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