Riuk
Eu sinto a loba dela no limite antes mesmo de olhar pra ela.
É como um trovão preso dentro do peito, um rosnado que vibra no ar, um cheiro de raiva tão puro que até meu próprio lobo recua um segundo, respeitoso. Rubi está tremendo, os olhos faiscando, os caninos ainda visíveis, e eu sei que se eu tentar segurá-la agora, se eu tentar arrancá-la daqui e levar pra longe, ela vai me odiar por isso.
Porque ela precisa dessa luta.
Precisa dessa dor.
Precisa mostrar pra todo mundo que não é mais a menina que aceitava migalhas.
E eu odeio isso.
Odeio com cada célula do meu corpo ter que ficar parado, vendo ela sangrar por dentro, vendo ela se erguer sozinha, quando tudo que eu quero é carregar ela no colo e nunca mais deixar ninguém chegar perto.
Mas eu me seguro.
Porque amor de verdade, às vezes, é deixar a fêmea que você ama rasgar o mundo com as próprias garras.
Libby dá um passo hesitante, os olhos marejados, a voz suave.
“Rubi, meu amor… eu tô tão feliz por você ter uma loba, eu sempre soube que...”
“Cala a boca, tia.”
O corte é seco, cruel, e Libby recua como se tivesse levado um tapa.
Eron não diz nada.
Ele só observa.
Observa ela de um jeito que eu nunca vi: sem pena, sem culpa, sem defesa. Só aceitação.
Nossos olhos se cruzam por um segundo, e eu entendo tudo sem precisar de palavras.
Ele sabe que errou feio. Sabe que tentar nos separar foi a pior escolha da vida dele. Sabe que o que criamos, eu e ela, é mais forte do que qualquer plano idiota que ele tenha feito.
E sabe que vai levar muito, muito tempo pra gente perdoar.
Eu respiro fundo e dou um passo à frente, a voz baixa, mas firme o suficiente pra todo mundo ouvir.
“Ninguém fala nada sobre a loba dela. Pra ninguém. Ela ainda não passou pela transformação completa. Estamos trabalhando nisso. Depois de tudo que aconteceu hoje, ela precisa de tempo. Só ela decide quando e como contar pra família.”
Libby limpa o rosto com as costas da mão, assentindo rápido.
“Se precisarem de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, é só me chamar. Sinto tanto por tuso isso... se a gente soubesse que...”
Rubi nem olha pra ela.
“Eu preciso ficar sozinha.”
E então ela corre.
Corre como se o mundo estivesse em chamas atrás dela, desaparecendo entre as árvores da floresta que cerca a Casa Suprema.
Eu olho pra os dois.
“Entrem. Fiquem quietos. Isso é dela. Só dela. Quando ela quiser, ela conta.” Vou me afastar, mas Eron me segura pelo braço e meu lobo rosna.
"Eu fiz o que achei melhor para a sua segurança. Eu te amo, irmão e faria de novo, apenas para ver o que vejo em você agora." engulo em seco o encarando, antes dele me soltar, mas não demoro. Eu corro atrás de quem realmente importa para mim nesse momento.
O cheiro dela me guia fácil, selvagem, doce, furioso, e eu encontro ela caída de joelhos entre as árvores, os ombros tremendo, as mãos cravadas na terra como se quisesse arrancar o chão.
Me ajoelho na frente dela, devagar, com todo o cuidado do mundo.
Beijo o topo da cabeça dela, inspiro o cheiro que é só nosso, e sinto meu lobo se acalmar só de estar perto.
Ela levanta o rosto.
Os olhos azuis que eu amo tanto deram lugar ao dourado mais lindo e perigoso que já vi.
A loba dela quer sair. Quer brigar. Quer correr. Quer uivar até o céu rachar.
Seguro a mão dela, levo os dedos aos meus lábios, beijo cada um com devoção.
“Deixa ela sair, pequena.”
Minha voz sai baixa, rouca, cheia de tudo que eu sinto.
“Estou aqui. Sempre vou estar aqui.”
Me afasto dois passos, tiro a camisa, e deixo o lobo vir.
O estalo dos ossos, o calor da transformação, o pelo cinza mesclado com branco tomando meu corpo.
Em segundos estou de quatro, maior do que nunca, o lobo livre, inteiro, à disposição dela.
Eu abaixo a cabeça, exponho o pescoço, a maior submissão que um lobo pode oferecer.
Porque hoje não sou o lobo.
Sou o companheiro.
Sou o porto seguro.



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