Riuk
Saio do quarto sem fazer barulho. A mansão está num completo silêncio, pesado, abafado, como se até as paredes soubessem que eu estou indo para o treino e se ressentisse com isso. O relógio antigo marca 4h47. Os segundos batem como um coração que não é o meu.
O corredor está vazio, e percebo que ninguém imaginou que eu sairia tão cedo.
Minha mãe ficou desesperada quando me viu chegando, meu pai e meus irmãos, tentaram não demonstrar, mas também ficou abalada. E isso que era só o primeiro dia.
O que acontecerá nos próximos?
O cheiro da Rubi ainda está na minha pele. Lavanda, pele quente, pertencimento.
Não me importo de ir para o inferno, desde que ela permaneça inteira.
Desde que ela esteja segura.
Aperto os punhos e sinto a cicatriz no peito queimar.
Desço as escadas sem acender luz. A madeira geme baixo sob meu peso. Passo pela cozinha, agarro uma garrafa de água e não bebo. Não ainda. Empurro a porta dos fundos.
O frio da madrugada rasga minha pele. Grama molhada. Neblina baixa. O hangar surge atrás das árvores como um túmulo de metal esperando ser aberto.
A porta está trancada. Não importa.
Drevan disse que o Vazio não é um lugar. É uma resposta.
Paro diante da parede fria. Encosto a testa no metal.
“Apareça.”
Nada.
Meu maxilar trava. O lobo se move sob a pele.
“Apareça.”
O ar vibra. Um brilho azul-escuro sangra da parede, desenhando uma porta que não existia. O metal se dobra como carne viva. Ela se abre sem ruído.
Escadas descendo para o nada.
Cheiro de incenso velho. De sangue seco. E magia.
Dou uma olhada para os lados antesd de finalmente descer.
O mundo se transforma.
A floresta morta nasce ao meu redor: árvores negras, retorcidas, galhos como dedos apodrecidos apontando para um céu cinza, sem sol, sem lua, sem salvação. O chão é lodo, folha podre, decomposição. Cada passo queima. O ar dói. Respiração corta por dentro, como se eu respirasse lâminas.
Hoje é um lugar novo.
Drevan me observa encostado numa árvore, imóvel demais.
“De volta tão cedo.” A voz dele não vibra no ar. Vibra dentro da minha cabeça. “Viciado em dor?”
Dou um passo. O chão queima até o osso.
“Viciado na minha Luna. Atlas chegou perto dela. Fez alguma coisa que faz com que ela cuspa sangue, toda vez que tenta falar algumas coisas. Preciso quebrar isso.”
Ele sorri. Sem humor.
"Feitiço do silêncio." ele coça o queixo. "Ele é tão burro assim? Não acha que ele está testando seus poderes?"
"Do que está falando?"
"Por que ele faria um feitiço que tem uma forma de punição. É obvio demais."
"Todo feitiço não tem uma punição?" questiono.
"Apagar memórias não. Ele poderia ter falado o que quisesse com ela, e apagado a memória dela." engulo em seco.
"Então o que ele quer com isso?" resmungo, sentindo meu lobo rosnar.
"Ele quer que sua magia, quebre a dele, para ele saber o quão forte você é."
"Mais um teste?" solto minha mochila no chão.
"Não é um teste, Riuk. É uma validação. Assim que quebrar o feitiço, ele saberá a intensidade do seu poder."
"Merda, e como faço para quebrar isso sem me denunciar?"
"Essa é a questão. Você não faz."
"Como não?" rosno.
"Se fizer ele saberá, então se fortaleça e vá atrás dele. Mate a fonte, não o problema." penso no que ele me diz, e ele tem razão, mas como posso deixar Rubi sangrando nesse meio tempo?
"Vamos começar logo..." falo olhando em seus olhos roxos.
"Como quiser."
O sorriso dele desaparece.
O ar se rasga.
Uma massa roxa me atinge no peito como uma parede em movimento. Sou lançado contra uma árvore. O tronco estala, parte ao meio. Minha coluna grita. O ar foge dos meus pulmões. Sangue sobe.
“Levanta.”
Não penso. Não imploro.



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