Eles já estavam quase terminando o prato quando Dorian franziu a testa e pegou o celular do bolso.
— Estranho… — murmurou.
Francine levantou os olhos, desconfiada.
— O que foi agora? Alguma ação caiu um centavo?
Ele não respondeu de imediato, apenas olhou a tela, depois ao redor, como se escaneasse o ambiente.
Malu, por sua vez, aproveitava a trégua momentânea para raspar o molho do prato com o pão.
— Recebi um alerta aqui — disse Dorian, sem olhar diretamente para nenhuma das duas. — Tem um AirTag desconhecido próximo de mim há um tempo.
O garfo caiu do prato de Francine com um tilintar seco. Ela empalideceu.
— Um quê?
— AirTag. Localizador da Apple. Normalmente avisa quando alguém está sendo seguido sem saber. — Ele ergueu os olhos pra ela, com um olhar mais sério, menos provocador dessa vez. — Será que está com alguma de vocês?
Francine empurrou a cadeira para trás de repente e começou a vasculhar a própria bolsa com pressa, os dedos tremendo levemente.
Malu só assistia, confusa.
— Fran… o que foi?
Ela não respondeu.
Enfiou a mão no forro interno da bolsa, tateando com desespero, até sentir o pequeno objeto redondo enfiado em um rasgo sutil demais para ser notado. Puxou com força, rasgando o tecido.
E lá estava. Um AirTag.
O coração dela disparou. O rosto queimava.
— Aquele desgraçado… — murmurou, com a voz entre o choque e a fúria.
— Francine? — Malu arregalou os olhos. — Isso é seu?
— É meu. Quer dizer… tava comigo, né? — respondeu rápido, tentando parecer calma. — Deve ter sido… sei lá. Colocaram sem querer.
— Colocaram? — Dorian arqueou a sobrancelha, descrente. — Alguém tá monitorando você?
Ela engoliu seco e enfiou o rastreador de volta na bolsa, com o mesmo desespero com que alguém esconde um teste de gravidez no fundo da gaveta.
— Não, não. Deve ser engano. Deve ser do Elias, ou do Otávio. Às vezes ficam coisas perdidas lá na cozinha… Eu resolvo.
— Francine. — A voz de Dorian ficou mais firme. — Isso não é normal. Ninguém perde um rastreador no forro da bolsa de outra pessoa.
— Eu disse que resolvo. — O tom dela cortou o ar.
Francine soltou um suspiro e deixou o corpo afundar na cadeira, como se só agora pudesse respirar de verdade. Abriu a bolsa e tirou o dispositivo, colocando-o sobre a mesa.
— Tenho quase certeza que isso aqui foi o Natan. — A voz saiu amarga. — Quando ele recuperou minha bolsa daquele "ladrãozinho", deve ter colocado isso. Se é que o ladrão era mesmo de verdade, né?
Malu arregalou os olhos.
— Você tá dizendo que ele armou tudo aquilo?
— O Natan? Não duvido nem por um segundo. Criar uma situação de perigo, se fazer de herói, garantir que eu me sentisse em dívida… É exatamente o tipo de coisa que ele faria.
— Que nojo. — Malu olhou o AirTag como se ele estivesse contaminado. — Isso é... bizarro. Doentio. Agora entendo por que você odeia tanto ele.
Francine bufou, enfiando o AirTag de volta na bolsa com raiva.
— E o Dorian também. Tudo farinha do mesmo saco. Acham que por terem dinheiro podem ter o controle de tudo, até da minha vida.
Malu ergueu as sobrancelhas.
— Ué, achei que você tava começando a confiar no Dorian.
Francine deu uma risada seca.
— Confiar? Eu tô de olho. Só porque ele finge que é diferente, não significa que é. Ele ainda é um homem acostumado a ter tudo do jeito dele. Mas agora eu tô vacinada, Malu. Nenhum dos dois vai passar por cima de mim. Nunca mais.

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