Rostos e Máscaras
O elevador abriu com um som suave, e Eloise desceu até o saguão.
O ambiente ainda estava cheio — o som dos passos, do telefone tocando e das portas automáticas criando uma rotina quase hipnótica.
Ela foi direto até o balcão da recepção.
— Obrigada, Maria. — disse, pegando o celular esquecido.
— De nada, senhora Nogueira. — respondeu a recepcionista, sorrindo.
Eloise ajeitou a bolsa no ombro e se virou para o elevador.
Mas antes que desse o primeiro passo, uma voz familiar chamou atrás dela:
— Oi, Elô! Tudo bem? Tá sumida.
Ela se virou, surpresa.
— Oi, Lucas. — respondeu com um sorriso polido. — É… tô trabalhando muito.
Ele se aproximou, o olhar fixo demais, o sorriso travado.
— Você tá bem… depois do acidente? — perguntou, a voz baixa, quase ensaiada.
Eloise hesitou por um instante.
Havia algo estranho na forma como ele a observava — como se estivesse tentando decifrar algo.
— Sim, tô bem. — respondeu, tentando manter o tom leve. — Foi só um susto, nada demais.
Antes que Lucas pudesse dizer mais alguma coisa, a porta de vidro da entrada se abriu com força.
Um homem entrou apressado, a postura imponente e o olhar atento.
José Monteiro.
— Eloise! — chamou, ao se aproximar com um sorriso breve. — Tudo bem?
— Senhor José! — disse ela, surpresa e um pouco aliviada. — Tudo ótimo. E o senhor?
— Estou bem, obrigado. — respondeu ele, analisando o ambiente com atenção. — Está tudo certo por aqui?
— Sim, tudo tranquilo. — respondeu Eloise, sorrindo.
Mas o olhar de José desviou, pousando sobre Lucas.
Os olhos dele se estreitaram.
— Quem é esse? — perguntou, o tom firme. — Está te incomodando?
Lucas pareceu ser pego de surpresa.
O sorriso que antes tentava parecer amistoso se desfez por um instante, revelando algo contido — um lampejo de raiva que logo se apagou.
— Não, senhor José. — interveio Eloise, rapidamente. — Esse é o Lucas Castro, do setor de TI.
José o encarou por alguns segundos que pareceram longos demais.
— Lucas Castro… — repetiu, pensativo. — Eu conheço você?
Lucas engoliu seco, o rosto começando a suar.
— N-não, senhor. Acho que não. Talvez meu rosto seja comum… dá essa impressão.
O tom era calmo, mas os olhos diziam o contrário.
Havia raiva — e algo mais sombrio, escondido por trás da máscara.
José manteve o olhar por mais um instante, até assentir lentamente.
— Entendi.
Voltando-se para Eloise, retomou o tom leve:
— Me acompanha até a sala do Augusto.
— Claro, sem problemas. — respondeu ela, ainda estranhando a tensão no ar.
José Monteiro ajeitou o paletó, prestes a seguir em direção ao elevador ao lado de Eloise.
Antes que as portas se abrissem, Lucas falou rápido, com um sorriso nervoso:
— Eu… eu vou de escada. — disse, tentando soar casual. — Preciso sair do sedentarismo.
José virou-se devagar, analisando-o por um segundo a mais do que o necessário.
— Hm. Certo. — respondeu, apenas. — Boa escolha.
Eloise murmurou baixo:
— Estranho…
O olhar dele permaneceu firme por um instante, pesado — como se algo em Lucas o incomodasse, mesmo que ele ainda não soubesse o quê.
Lucas desviou o olhar, fingindo ajeitar o relógio no pulso.
O suor já escorria pela nuca.
O maxilar contraído, os punhos cerrados, o olhar frio e vazio.
O sorriso falso desapareceu de vez.
E, quando ninguém mais olhava, os olhos dele mudaram — escuros, intensos, perigosos.
— Um dia, velho… um dia você vai me reconhecer. — murmurou, quase inaudível, antes de virar as costas e desaparecer pela porta das escadas.
___
O elevador subia em silêncio.
O som suave do motor era a única coisa que quebrava o clima denso entre os dois.
Eloise observava os números mudarem no painel, tentando disfarçar o desconforto.
José Monteiro, ao lado dela, mantinha a postura impecável, o olhar distante, como se travasse uma conversa consigo mesmo.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse uma palavra.
Então ele respirou fundo e falou, a voz baixa, porém carregada de sinceridade:
— Eloise… eu queria me desculpar.
Ela o olhou, confusa.
— Desculpar?
— Sim. — respondeu ele, fitando o chão por um instante antes de encará-la. — Eu a julguei mal no começo. Quando soube do envolvimento entre você e o Augusto, pensei que fosse apenas mais uma história de interesse… e fui injusto.
Eloise ficou em silêncio, surpresa com a honestidade dele.
José continuou, a voz firme, mas com um tom de arrependimento raro de se ouvir nele:
— Eu vi o quanto você esteve ao lado dele, mesmo quando ele não merecia. E o quanto o meu filho mudou desde que você entrou na vida dele. — suspirou. — Então… me desculpe.
Eloise sentiu um nó na garganta.
Aquele homem, tão duro e orgulhoso, reconhecendo o erro, era algo que ela jamais imaginara presenciar.
Ela sorriu, leve, sincera.
— Senhor José… não tem o que desculpar. — disse suavemente. — Eu entendo. O senhor só queria proteger o Augusto.
Ele assentiu, o olhar abrandando.
— É. — murmurou. — E fico feliz por ter me enganado.
O elevador parou com um leve solavanco. As portas se abriram, e uma luz suave invadiu o espaço.
— Um filho?
José assentiu lentamente.
— Sim. Um filho que nunca soube da verdade.
— E a mãe é sua ex namorada? — perguntou Augusto, já prevendo o nome.
— Sim, Márcia. — respondeu José, baixo. — Ela se casou depois, com um homem influente: Antônio Mello.
Augusto franziu o cenho.
— Mello?
José levantou o olhar, firme, mesmo com a voz embargada.
— Lorenzo Mello. — disse, pausadamente. — Ele é seu irmão, Augusto.
O mundo pareceu parar por um instante.
Augusto ficou imóvel, sem reação.
— Está brincando comigo. — disse, num tom entre raiva e incredulidade.
— Queria estar. — respondeu José, a voz carregada. — Antônio Mello me odeia desde o dia em que me casei com sua mãe. Ele sempre teve uma paixão doentia por Cecília — e saber que aquele menino não era sangue dele virou o veneno que ele alimentou por toda a vida.
Augusto apertou as mãos contra a mesa, tentando conter a fúria.
— Isso é sério demais pra ser dito agora, pai.
— Eu sei. — murmurou José. — Mas você precisa entender: o que está acontecendo — Antônio quer vingança e está trabalhando com um tal de Louvre que também quer vingança dos Monteiros.
— Louvre. - Augusto repetiu aquele nome com o amargo na boca.
— Por ódio. — respondeu José, firme. — Antônio perdeu Márcia dentro da própria casa — ela ouviu uma conversa dele e tentou fugir. Depois disso, ele enlouqueceu. E agora… quer nos ver cair, um a um.
Augusto respirou fundo, caminhando até a janela.
A cidade se estendia diante dele, indiferente à avalanche que acabara de desabar sobre seu mundo.
— Então… Lorenzo Mello. — disse, devagar. — O homem que tentou me derrubar… é meu irmão.
José se levantou, a voz baixa e trêmula.
— Filho, escuta o que vou dizer: aquele erro de trinta e quatro anos atrás não define o amor que senti pela sua mãe. Nem o homem que tentei ser depois. Mas você precisa saber que agora… o perigo é real.
Augusto virou-se, o olhar firme, gélido.
— E eu preciso saber até onde isso vai.
José deu um passo à frente, a voz grave e carregada de preocupação:
— Até o limite do ódio, meu filho. Antônio Mello quer a nossa ruína — e o pior é que não faço ideia de quem realmente está por trás do nome Louvre, nem do que esse homem é capaz de fazer.
Augusto manteve o olhar fixo nele, o maxilar trincado.
— Estamos a um passo de descobrir quem é. Então eles vão descobrir que mexeram com a família errada.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase solene.
José abaixou o olhar, com um nó na garganta.
Sabia que aquela revelação mudaria tudo — não apenas o presente, mas também as feridas que Augusto ainda nem sabia que carregava.
Do lado de fora, o relógio da MonteiroCorp marcava nove e quarenta e cinco.
Mas, para pai e filho, o tempo parecia ter parado trinta e quatro anos atrás.
Foi então que o som agudo de um toque vibrou no ar.
O celular de Augusto, sobre a mesa, começou a tocar — a tela iluminando o ambiente silencioso.
Augusto respirou fundo antes de atender.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...